O Voo do Coragyps

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Poucos impulsos humanos parecem ser tão antigos e arraigados como o de voar: a vertigem da amplidão e dos largos espaços, da vista grandiosa, de considerar as coisas de cima, de deslocar-se fácil, bela e prazerosamente sobre o comum e o exótico, de observar novos e maravilhosos ângulos, paisagens e horizontes. Voar – elevar-se – parece envolver as profundidades das aspirações humanas, quer se considere o sentido positivo, incluída a não secundária referência metafórica à elevação da alma, de longínquas reverberações psíquicas, emocionais e espirituais, e quer se considere aspectos menos elegantes de alguma ambição de superioridade. O certo é que serão em número muito reduzido, pode-se arriscar o palpite de que só mesmo as exceções extremas, aqueles que, a par com tais desejos, não deixarão de sentir algum receio, alguma vertigem. Pois o medo da altura, isto é, da queda, é tão inerente ao ser humano quanto o seu desejo de elevação; e não apenas por simples e instintiva autopreservação física, ou angustiosa preocupação por possível perda de vantagens adquiridas (no sentido figurado, e não necessariamente positivo), mas por uma louvável consideração, naqueles que, no sentido espiritual, questionam-se sensatamente sobre as alturas exigentes às quais a alma é chamada por Deus. Estas últimas vão buscar Nele mesmo as suas vias de assunção, e as demais situações são a realidade da condição humana, podendo assim ser resgatadas. A única condição de voo que de fato preocupa é aquela, se relativa à elevação da alma, que alguns podem não querer ter…

O extraordinário fenômeno da projeção mitológica trouxe no seu enriquecimento cultural finas percepções também sobre esta antiquíssima aspiração humana, voar; também espiritualmente, elevar-se. A Grécia Antiga propôs a figura de Dédalo e Ícaro, pai e filho, pairando sobre esta questão, sob a óptica da prudência, da desobediência e das suas consequências. Numa mentalidade que admitia deuses antropomorfizados, semideuses, monstros e outros seres fantásticos, estes dois simples homens, presos no famoso labirinto da Ilha de Creta, acabaram por evadir-se utilizando as asas que Dédalo, dono de extraordinários talentos, fabricou a partir de penas de aves e cera. Durante a viagem, tomado pela ambição de chegar ao Sol, Ícaro, desprezando a orientação do pai, que lhe recomendava manter a sua estatura própria de voo, aproximou-se indevidamente de Hélios, arruinou suas asas e caiu, perdendo a vida (cf. Dicionário de Mitologia Greco-Romana. São Paulo, Abril Cultural, 1973).

Todos os pais e filhos, todas as gerações humanas, anseiam por libertar-se do labirinto que a vida pode vir a ser, e inevitavelmente será, se circunscrita ao mero plano horizontal da existência, aonde não faltarão minotauros espirituais – de compleição humana, mas com cabeça e mente bestial – procurando devorar carne e almas. É preciso erguer-se acima destas confusas e sólidas paredes que abrem inúmeras possibilidades para lugar algum, sob pena de morte certa. Sair deste vazio, onde nada pode ser encontrado, só é possível no alçar das aspirações, e no concomitante esforço para buscar os meios de soerguimento. Ora, o Homem tem um Pai talentoso, artífice divino, que lhe deu a Fé e a Razão, que são “como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade.” (cf. João Paulo II, Carta Encíclica Fides et Ratio, 1998). Cabe ao Homem o empenho de unir, na pátina da sinceridade e do bom senso, as plumas, rêmiges e retrizes de conhecimento e graças que o Divino Artesão lhe disponibiliza para revestir, estabilizar e orientar a elevação da alma.

Mas esta viagem é longa, e exige constância e noção de limites. A cooperação humana é necessária, mas é Deus que faz subir. Ícaro não obedeceu ao pai, que lhe indicou a humildade; por isso caiu do céu, e precipitou-se à morte, ao ambicionar, só com suas próprias forças – a ilusão que traz atingir grandes alturas! – chegar à plenitude da Luz… Nada mais semelhante à nossa condição humana, na qual as vãs pretensões de grandeza – em última análise, de chegarmos à condição divina, sermos Deus, por força própria, como e a partir da queda de Adão e Eva – se derretem como cera frente ao infinito calor da inefável, única, Imensidade de Deus. A Ele chegaremos, porque Ele mesmo nos quer e nos conduz e faz ascender, pelo sopro do Espírito; mas para ser elevado é necessário estar rebaixado, reconhecer a baixeza de criatura e a condição do Criador, do Altíssimo; ser humilde, ter os pés no chão.

Da humildade para a elevação, portanto, nos fala a própria criatura. Uma delas, em especial, se apresenta como extraordinário exemplo dos paradoxos salvíficos e amorosos de Deus, nos quais as meras aparências, tão ciosamente cultivadas nos labirintos mundanos, efetivamente enganam.

Poucas pessoas desconhecem os Cathartiformes e seus semelhantes, e certamente no Brasil e nas Américas a maioria já viu, talvez de perto, um seu copioso representante, o Coragyps atratus. Ele é tão comum, e nos é tão próximo, familiar, como as nossas próprias imundícies da alma e aspirações mais elevadas. É uma das sete espécies de urubus (e condor) das Américas, a que fazem paralelo os também notórios abutres do resto do mundo. Todo este grupo é conhecido, e abominado, por serem suas espécies necrófagas, alimentando-se de carniça, corpos de animais mortos em decomposição. Tal aparência… obscurece o indizível serviço prestado de reestruturação da Natureza, na reciclagem das carcaças pela reincorporação dos nutrientes orgânicos. Assim reduzem igualmente o alastramento de bactérias nocivas ao retirarem do meio ambiente material orgânico em putrefação, sendo de fundamental papel sanitário*.

Porém há uma outra característica pelo qual ao menos o condor andino, deste grupo, é largamente conhecido, e esta é justamente o voo. O famoso voo do condor é citado pelo seu aspecto soberbo, imponência e pela grande altitude. Parece uma característica única de um animal especial, mas este aparente distanciamento se desfaz ao olhar do povo simples que observa, com naturalidade e encantamento, o elegantíssimo e enlevado planar do Coragyps, tão maravilhoso e acessível como um sorriso de criança. É importante constatar que a altivez do condor seja a mesma, exatamente a mesma, do tão próximo urubu… as maravilhas que Deus oferece à contemplação e consideração do Homem são desta mesma natureza, a um tempo altíssimas e especiais, comuníssimas e vizinhas.

O que torna semelhante o voo do condor e o do Coragyps é o uso de massas ascendentes de ar quente, as “térmicas”, pelas quais se deixam carregar para cima, praticamente sem esforço, planando com firmeza nas asas estendidas e apoiados da sustentação do ar* (“pneuma”). Mas no caso do Coragyps nota-se com clareza um padrão de deslocamento, em círculos cada vez mais amplos e altos; já em terra, seu passo é desajeitado, bamboleante – na verdade, foi feito para voar. Grande contraste, que seu alimento terreno seja só podridão, quando, ao voar, descortina com sua privilegiada visão tão límpidos horizontes.

Este paradoxal e vulgar urubu, o que nos tem a dizer como criatura, especialmente neste tempo de Natal quando, ao contrário do homem Ícaro que pretensiosamente quer sozinho chegar às Alturas, o Altíssimo Senhor humildemente Se rebaixa à condição humana?

Como ele, nós também não pertencemos a esta terra. Aqui andamos desajeitados, oscilamos, caímos. Fomos feitos para voos mais altos: o plano terreno, horizontal, labirintítico não serve ao Homem. Na sua justa aspiração ao Céu, é preciso que se deixe ser elevado pelo pneuma – o Espírito Santo – em altura e santidade, para fazer juz ao horizonte divino que o Senhor, desde o princípio, quis lhe dar gratuitamente por amor. Ainda que nos alimentemos continuamente da sujeira dos nossos pecados, podemos chegar à pureza e limpidez do Céu, pela Graça que nos alcança os horizontes eternos da Trindade.

As aparências enganam… De nenhuma outra forma o Homem fica tão preso ao solo, à terra, ao barro de que foi feito, do que ao tentar se elevar a Deus por força própria. Se o Divino Oleiro não o molda, vira pó, volta ao nada, morre. Deus Pai, na Encarnação do Filho – no Natal – nos ensina a humildade, no paradoxo de que é se fazendo humilde, de húmus, terra, chão, que somos erguidos, com, por, em e como Cristo, elevado, mas pela desconcertante humildade redentora da Cruz! E é só no calor desta corrente ascensional de amor que, como o Coragyps nas térmicas, chegaremos – seremos elevados – às Alturas. Jesus Se faz próximo, familiar – como o majestoso voo de um urubu e a realeza de um sorriso de criança.

Esta é a Boa Nova! Pobres e ainda que não totalmente limpos, como o local de nascimento de Cristo, podemos receber o Rei do Universo! Uma gruta adaptada em estábulo, numa “Casa do Pão” – Belém – de poucos recursos e habitações tumultuadas pelos que se iam recensear, oferece a sobriedade e o recato convenientes à Natividade do Senhor; nosso pobre coração também não tem recursos, e nossa alma em rebuliço pelas renovadas contagens de nossas faltas talvez possa oferecer apenas um recanto pedregoso, mas se estiver adaptável à tranquilidade necessária à vinda escondida do Salvador, isto basta! Pois Nossa Senhora também limpará ainda que o mais ínfimo espaço disponível, como fez à manjedoura, para ali depositar Aquele que é nosso manjar de eternidade, o Pão Eucarístico que desceu do Céu para Se tornar Um conosco. Deus Criador Se faz criatura, para que a criatura possa ser elevada a Deus! Como compreender plenamente este

Só Deus pode reestruturar a natureza, a natureza decaída do Homem, convertendo morte em vida… ainda aqui nos auxilia o cathartídeo, que, na feliz percepção de um reconhecido ornitólogo brasileiro, “exerce verdadeira atração sobre a curiosidade humana, pela sua pacífica convivência com a morte, dela extraindo sua própria vida” (Luiz P. Gonzaga, 1981 – in: SICK, H. 1988. Ornitologia Brasileira, Uma Introdução Vol. 1, 3ª ed., Brasília, Editora Universidade de Brasília, xx + 481 p., pág. 199). O urubu vive da decomposição: Cristo do Alto nos vê bem, e absorve os nossos pecados e imundícies, os cadáveres das almas, e os transforma em nova vida Nele mesmo, elevando-nos ao Pai Altíssimo, pela Cruz e Ressurreição – o que é o objetivo último do Natal, da Encarnação. Sim, a comparação repugna, mas é a medida da nossa pequenez e da Sua infinita grandeza: Ele Se torna como que um Coragyps, que no Natal nos eleva pela máxima expressão da Sua infinita humildade, no Seu total rebaixamento até o ponto de digerir nossas sujeiras, para que possamos com Ele voar aos Céus, na carne redimida, renovada e ressuscitada da nova humanidade.

Este voo, majestoso e acessível, familiar e régio como o sorriso de um Infante, é o que se deseja de coração ao leitor neste Natal e Novo, renovado Ano.

José Duarte de Barros Filho   30-31/12/2014

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http://www.avesderapinabrasil.com/coragyps_atratus.htm

http://www.avesderapinabrasil.com/cathartiformes.htm

http://www.birdorable.com/vultures/

http://www.avesderapinabrasil.com/vultur_gryphus.htm

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