Os Miseráveis, um filme “Pascal” – por Marco Antonio De los Ríos V.

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Depois de 27 anos, desde que estreou o musical na versão de Alain Boubil e Jaen-Marc Natel musicada por Claude-Michel Schöberg, temos hoje a sorte de ver uma adaptação para o cinema do musical Os miseráveis, baseado na obra mestre de Victor Hugo. O filme é dirigido por Tom Hooper, ganhador do Oscar de Melhor Realizador com “O Discurso do Rei”, trabalhando junto com Cameron Mackintosh (um dos produtores do primeiro elenco musical em 1985 e produtor praticamente vitalício tanto do 10º como o 25º aniversário da estreia do mesmo musical).

Hugh Jackman (Jean Valjean), Russell Crowe (Javert), Anne Hathaway (Fantine), Amanda Seyfried (Cosette), Eddie Redmayne (Marius), Samantha Barks (Eponine) – que participou do musical no 25º aniversário –, e Colm Wilkinson (Bispo Bienvenu Myriel), que foi o primeiro Jean Valjean da historia do musical, protagonizam um elenco de grandes atores. As sequências de cenas acompanham muito bem o ritmo que o musical impõe. Os efeitos de câmera e a atuação dão uma vitalidade e dinamismo à trama que envolvem mesmo alguém que não esteja familiarizado com a história ou com o musical.

A novela, escrita por Victor Hugo em 1862, é, sem sombra de duvida, a obra mestra do francês, e possivelmente da literatura francesa. Esta dá vida ao musical que é em boa parte fiel ao livro contando a história de Jean Valjean, preso em Toulon por 19 anos: 5 por ter roubado um pedaço de pão para dar de comer ao filho da sua irmã, e o resto por tentar fugir. Depois desse tempo ele sai em liberdade condicional disposto a cobrar do mundo o que tiraram dele, cheio de um ressentimento profundo contra a vida e sua sorte, mas um encontro com o Bispo de Digne, Monsenhor Bienvenu, muda totalmente seus planos é até mesmo, o mais importante, sua vida.

jean-valjeanCertamente Valjean é o protagonista da história, mas também é o fio condutor de outras tantas histórias tão “miseráveis” como a dele. Fantine é uma ex-operária de uma fábrica que por motivos injustos é demitida e obrigada a se prostituir para enviar dinheiro para o cuidado de sua filha (Cosette). Esta, desde muito pequena vive com os Thernandier, onde é tratada praticamente como uma escrava. Eponine, filha dos Thernandier, vive um amor não correspondido por Marius, que por sua vez ama Cosette. Javert, o sargento implacável, vive um moralismo extremo e rígido no qual não reconhece as atenuantes da lei nem muito menos a misericórdia. Embora acredite em um Deus, sua visão dELe é reduzida ao paradigma estreito de Justiça, sem reconhecer o rosto misericordioso que uma autêntica perspectiva de Deus pode mostrar. Tal é a rigidez moral de Javert que não consegue nem perdoar nem descobrir-se perdoado (por Jean Valjean que o poupa da morte). Ele mesmo torna-se juiz e carrasco de si mesmo.

bishopofdigneO filme apresenta além de rostos conhecidos ─ e para alguns, algumas facetas não conhecidas dos atores ─, uma série de valores profundamente magnânimos, de sacrifício e reconciliação. Basta lembrar do primeiro encontro entre Valjean e o Bispo, ou do ato de perdão com o qual o religioso “comprou” a liberdade dele, depois de ter sido roubado. “Guardo tua alma para Deus” diz Bienvenu, que o trata desde o início com bondade e mansidão, um jeito totalmente alheio para Jean Valjean. Não é fácil libertar-se dos preconceitos de alguém marcado pela vida e mesmo assim apostar nele, ao menos pela pouca bondade que possa continuar nele! O olhar profundo do Bispo faz com que não enxergue só o exterior de Valjean, com seus olhos amargurados e desconfiados, mas sobretudo enxergue o cansaço que o ódio e o pecado produzem nele. Esse gesto de Perdão renova e transforma Jean Valjean. Mas por que o transforma? Por que esse coração tão endurecido acaba amolecendo? Valjean se descobre tão miserável por ter roubado a única pessoa que o ajudou e cuidou dele, sente tamanha vergonha, que se vê dentro do mais profundo poço. Assim, ao receber o perdão, não pode deixar de olhar a esperança de uma nova vida, “uma vida nova deve começar”, diz no “solilóquio” e é tão intenso que junto com a sua aparência faz lembrar vivamente a pintura de “o Filho Pródigo” de Rembrandt.

cosette-les-miserablesA mudança de vida, não só repercute na própria vida de Jean Valjean, mas também nos outros, o filme tenta expressar com profundidade essa relação, deixando de lado os fatalismos. É possível para alguém que esteve na profunda miséria, converter-se e transformar a vida daqueles que o rodeiam. É misterioso como a natureza humana reluz, refulge o brilho mais puro de sua humanidade nos momentos mais difíceis, nos quais se exige não só entregar algo de si mesmo, mas particularmente onde se exige a entrega por inteiro, expor-se diante de Javert ao resgatar um cidadão debaixo de um carreta, o cuidado de Fantine e a adoção de Cosette, a libertação de um preso ao qual imputaram seu próprio nome, salvar a vida de Marius e rezar por ele, a misericórdia que teve com Javert e outras mais. É aí que Valjean fortalece mais ainda a coerência e sobretudo a nobreza de uma vida totalmente redimida e convertida, é um claro exemplo de que não existe determinantes para uma vida “destinada” a perecer na desgraça.

JavertO contrário se dá com Javert, que se acha a “lei encarnada”. Ele é inviolável, fecha-se perante um horizonte amplo do perdão e cai (literalmente) na própria morte.

Certamente as virtudes humanas nem sempre aparecem nesses momentos. Ao contrário, parece que na maioria das vezes é a miséria humana que aproveita as circunstâncias de rebelião e crise para desabar com toda a sua maldade, justificar sua fraqueza. Apesar de se mostrarem com toques de comicidade os Thernandier representam muito bem o lado baixo do ser humano.

É muito significativo no final do filme o encontro daqueles que, como o do pobre Lázaro do evangelho, sofreram na vida para encontrar o conforto só no final do caminho. O encontro entre Jean Valjean, Fantine e o Bispo Bienvenu no que parece ser a “ultima morada” é o descanso merecido de quem viveu o máximo da sua generosidade na terra.

Acredito que o filme providencialmente aparece neste tempo de quaresma, tempo de conversão e purificação, um tempo para “descansar dos erros” nas palavras do Mons. Bienvenu, e um tempo para “começar uma nova história”. Um homem novo deve nascer na ressurreição de Cristo, revestido, disposto a viver a partir do melhor dele e com a paciência de levar consigo um passado que já não o condena mais.

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