Person of interest: cuidar dos outros, aventura e reconciliação

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Num mundo onde muitas vezes prima uma atitude egoísta, de cuidar apenas dos próprios interesses, da própria saúde e bem-estar, segue tendo plena vigência a verdade central da antropologia cristã: a pessoa humana só se realiza na grande aventura de viver com e para os demais, seus semelhantes, seguindo o exemplo do Senhor Jesus.

Causou-me uma grata surpresa encontrar uma nova série, Person of interest, que coloca no centro da trama a preocupação de um grupo de pessoas em cuidar das outras pessoas, com os riscos que muitas vezes isso implica. Apesar de faltar uma referência explícita a Deus, penso que a série é eficaz em mostrar como um grupo de pessoas se realiza e encontra seu lugar na existência vivendo para salvar outras pessoas.

Primeiro, uma breve explicitação dos personagens e da trama, sobretudo para quem não viu a série. Cada personagem foi cuidadosamente elaborado e sua história e características vão sendo desveladas capítulo a capítulo.

Harold Finch, um multimilionário e gênio da informática, desenhou uma máquina que é capaz de prever crimes. A máquina oferece um número de segurança social, que pode ser da vítima ou autor de um crime futuro. Inicialmente, a tecnologia estava destinada a prevenir crimes em grande escala. Contudo, depois de um tempo, Finch decide fazer algo para impedir crimes contra pessoas comuns, que sob certo ponto de vista podem ser considerados “irrelevantes”.

Para o trabalho de campo, contrata Mr. Reese, um ex-militar e agente de inteligência.

Conforme avançam os capítulos, mais personagens passam a se integrar à equipe, como o detetive Fusco e a detetive Carter.

Cada personagem é complexo e merece ser visto detalhadamente, o que não podemos fazer aqui. Bastar dizer que, por diversos motivos, todos vão somando à causa de evitar crimes, de proteger as outras pessoas.

Reese, por exemplo, é um personagem complexo. Vê a si mesmo como uma causa perdida, mas faz de tudo para salvar outras pessoas. Sua história passada, um tanto turva, também permite compreender a mentalidade de muitos dos crimes. A amizade e confiança com Finch vão aumentando ao longo dos capítulos, assim como com Fusco e Carter. Fusco é um policial corrupto que pouco a pouco vai se transformando e se somando à causa e Carter uma policial modelo, que trabalha com Fosco em homicídios e que se questiona sobre a possibilidade de evitar homicídios em vez de investigar culpados depois do crime.

É um breve resumo, mas a partir do que foi dito pode-se assinalar alguns dos pontos mais profundos.

Em primeiro lugar, a necessidade de uma equipe e de usar da melhor maneira as próprias habilidades para servir a uma boa causa. Finch usa suas habilidades com tecnologia e Reese suas habilidades táticas de combate. Fosco se caracteriza por sua astúcia e Carter utiliza também habilidades militares e, sobretudo, um sentido muito forte do que é justo e nobre.

Em segundo lugar, por mais que os personagens sejam diversos, eles compartilham um elemento: a compaixão por outras pessoas, o não serem indiferentes, senão particularmente sensíveis às suas necessidades, que não se limita a sentimentos, senão que se traduz em ações concretas por salvar as ditas pessoas.

Como já anunciava no início, penso que se possa fazer uma relação direta com a antropologia cristã, segundo a qual o homem somente se realiza no sincero dom de si aos demais, num viver não só com o outro, senão para o outro. O máximo exemplo disso, está claro, se encontra em Cristo.

Este ideal não se realiza em situações ideais. Vemos que todos os personagens têm histórias complexas, erros cometidos, rodeios obscuros com os quais devem se reconciliar. E isto leva a um último tema que gostaria de tocar. Uma ideia presente, sobretudo, em Mr. Reese, que é a de uma necessidade de reconciliação bastante forte. Penso que fazer o bem, haver encontrado o próprio lugar não é suficiente. Faz falta renunciar a uma visão negativa de si mesmo, a de ver-se como causa perdida. De alguma maneira, o cuidado com os outros só é possível caso alguém também saiba cuidar de si mesmo.

Passando para um nível um pouco mais transcendente, penso que a festa litúrgica que é feita dos Domingos, do Bom Pastor, fala forte para esta necessidade profunda do ser humano, de ser reconciliado, protegido e que somente é plenamente satisfeita no encontro com Cristo, o Bom Pastor, o Reconciliador e Protetor por excelência.

Obviamente, porém, este último salto teológico não está presente na série. Quiçá seria muito pedir isto e já é o bastante o modo como eficazmente evidencia esse anseio profundo do ser humano como uma grande interrogação a ser respondida pelo espectador.

Tenho a convicção de que sempre que se evidencia um anseio profundo da pessoa humana, neste caso de uma reconciliação consigo próprio, de um amor que corresponda com sua grandeza íntima, não se pode deixar de evidenciar ao mesmo tempo a existência de um Deus Reconciliador, capaz de saciar esse anseio profundo, sem o qual toda a vida humana se perderia nas sombras do absurdo.

(Por Martín Ugarteche.)

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Martin Ugarteche Fernández
Membro do Sodalício de Vida Cristã desde 1996. Nascido no Peru em 1978, mora no Brasil desde 2001. Atualmente mora em Petrópolis, onde é professor de filosofia na Universidade Católica e trabalha em diversos projetos de evangelização da cultura.

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