Por uma Igreja ‘em saída’

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De que forma poderia se relacionar este mistério santo da Eucaristia, presença real do Senhor, lembrado e celebrado na solenidade e procissão do Corpus Christi, com um chamado insistente e desafiador do Papa Francisco, de sermos uma Igreja ‘em saída’? 1

No dia de Corpus Christi: “também nós procuramos seguir Jesus para ouvi-lo, para entrar em comunhão com Ele na Eucaristia, para acompanhá-lo, a fim de que Ele nos acompanhe”2. Façamos nossas as palavras do Papa Francisco: “Aqui (no Cenáculo) nasceu a Igreja, e nasceu em saída. Daqui partiu, com o pão repartido nas mãos, as chagas de Jesus nos olhos e o Espírito de amor no coração de Jesus ressuscitado, enviado pelo Pai. No Cenáculo comunicou aos apóstolos o seu próprio Espírito. Sair, partir, não quer dizer esquecer. A Igreja em saída guarda a memória daquilo que aconteceu aqui; o Espírito Paráclito recorda-lhe cada palavra, cada gesto, e revela o seu significado”3.

Culto Eucarístico

A renovação em continuidade do Magistério Pontifício nos lembra que “A Igreja vive da Eucaristia, vive da plenitude deste sacramento”.4 Ensina-nos “… que o culto eucarístico constitui a alma de toda a vida cristã”5. Nesta certeza, a Igreja e o mundo “têm uma grande necessidade do culto eucarístico.  Jesus nos espera neste sacramento do amor”6.

Missão e Serviço

Nossa meta deve ser celebrar esta solenidade em chave de missão e de serviço. Por isso, “o Cenáculo recorda-nos o serviço, o lava-pés que Jesus realizou como exemplo para os seus discípulos. Lavar os pés uns aos outros significa acolher-se, aceitar-se, amar-se, servir-se reciprocamente. Quer dizer servir o pobre, o doente, o marginalizado, a pessoa que me é antipática, aquela que me dá fastígio”.

A Solenidade de Corpus Christi é um dia para adorar e ter também um momento de intimidade, de confiança e de amizade com Deus, mas lembremos que: “a intimidade da Igreja com Jesus é uma intimidade itinerante, e a comunhão reveste essencialmente a forma de comunhão missionária”7. Por isso “… o Cenáculo recorda-nos a partilha, a fraternidade, a harmonia, a paz entre nós. Quanto amor, quanto bem jorrou do Cenáculo! Quanta caridade saiu daqui. Todos os santos beberam daqui; o grande rio da santidade da Igreja, sempre sem cessar, tem origem daqui, do Coração de Cristo, da Eucaristia, do seu Santo Espírito”8. Quanto é importante ver nossa origem e meta aqui, neste mistério, que é doação, entrega, partilha e solidariedade. Por isso perguntemo-nos: “Adorando Cristo realmente presente na Eucaristia: deixo-me transformar por Ele? Permito que o Senhor, que se doa a mim, me oriente para sair cada vez mais do meu espaço limitado, para sair e não ter medo de doar, de compartilhar, de amá-lo, de amar o próximo?”9.

Amizade com Deus

Que na Solenidade de Corpus Christi cada batizado compreenda que é fundamental ser “fiel ao modelo do Mestre, que é vital que hoje a Igreja saia para anunciar o Evangelho a todos, em todos os lugares, em todas as ocasiões, sem demora, sem repugnâncias e sem medo”10. Entender a missão da Igreja, sendo uma “comunidade missionária (que) experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor 11 e por isso, ela sabe ir à frente, sabe tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos. (Assim) com obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até a humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo”12. Que nesta solenidade procuremos sair de nós mesmos, desterrando das nossas vidas toda manifestação da cultura do descartável, para viver uma verdadeira cultura do encontro, especialmente em todas as realidades de periferia existencial, em que se encontra o ser humano.

Ano da Caridade

Que neste Ano da Caridade, que vivemos na nossa Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, continuemos o esforço por sermos uma Igreja particular em saída, dando testemunho de Jesus Cristo, no meio de contrariedades, conflitos, dificuldades, ausências, contrastes e injustiças sociais de diferentes tipos e níveis. Que saibamos acolher o grande ensinamento da Solenidade de Corpus Christi: Deus vem ao nosso encontro, caminha conosco, convida-nos a dar-lhe glória com a nossa vida inteira. Convida-nos a sermos generosos, solidários, abertos de coração, alegres, especialmente nas dificuldades, e com gestos e atitudes concretas, anunciar que a vitória do Ressuscitado já é a nossa vitória sobre todo pecado, mal e escuridão, seja pessoal ou social. Por isso, neste Ano da Caridade celebrar o Corpus Christi deve ser para nós uma ocasião especial para proclamar alegremente com as nossas vidas, atitudes e gestos concretos, que deste mistério de amor da presença real de Deus, “parte a Igreja em saída, animada pelo sopro vital do Espírito. Reunida em oração com a mãe de Jesus, ela sempre revive a espera de uma renovada efusão do Espírito Santo”13.

Referências:

S.S. FRANCISCO, “Evangelii Gaudium”, 20.

2S.S. FRANCISCO, Homilia na Santa Missa da Solenidade do Corpus Christi, 30 de maio de 2013.

3S.S. FRANCISCO, Homilia na Sala do Cenáculo. Jerusalém, 26 de maio de 2014.

4São JOÃO PAULO PP II, “Redemptor hominis”, 20d. Ver Catecismo da Igreja Católica, nn. 1324, 1325, 1343, 1407.

5São JOÃO PAULO PP II, “Dominicae Cenae”, 5.

6Catecismo da Igreja Católica, n. 1380.

7S.S. FRANCISCO, “Evangelii Gaudium”, 23.

8S.S. FRANCISCO, Homilia na Sala do Cenáculo. Jerusalém, 26 de maio de 2014.

9S.S. FRANCISCO, Homilia na Santa Missa da Solenidade do Corpus Christi, 30 de maio de 2013.

10S.S. FRANCISCO, “Evangelii Gaudium”, 23.

11cf. 1 Jo 4, 10

12S.S. FRANCISCO, “Evangelii Gaudium”, 24.

13S.S. FRANCISCO, Homilia na Sala do Cenáculo. Jerusalém, 26 de maio de 2014.

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