Quem é você na Parábola do Filho Pródigo?

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Neste tempo de Quaresma, tempo de penitência e conversão, a nossa primeira tendência ao reler a Parábola do Filho Pródigo, no Evangelho de Lucas, é a de nos identificarmos com o filho mais novo, o qual, depois de pedir a sua parte na herança, deixa a casa paterna e malgasta a sua fortuna numa vida devassa.

A juventude parece ser o tempo da rebeldia, da conquista do lugar próprio no mundo e do afastamento dos pais e das tradições que eles nos ensinaram. Isto parece ser, até certo ponto, natural. Em seu livro “Raízes do Brasil”, Sérgio Buarque de Hollanda chega a dizer que a debilidade dos vínculos familiares favorece a gestação de lideranças para o Brasil, historicamente.

Porém, esta identificação não deveria ser tão automática. Um autor polêmico e que tem cativado muitos jovens brasileiros nos anos recentes, Olavo de Carvalho, no seu livro “O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota”, afirma que a rebeldia contra os pais é uma rebeldia fácil, controlada, digamos assim, porque no fundo você sabe que eles nunca vão abandoná-lo, por mais que você os desafie e faça exatamente o contrário ao que eles mandam. Eles sempre serão seus pais. O verdadeiro rebelde é o que é capaz de ir contra a corrente, contrariar os demais jovens, os da própria geração.

Ambos os autores, de espectros ideológicos tão diversos, parecem, no entanto, coincidir na rebeldia como uma característica do jovem, que joga um papel importante no seu caminho de amadurecimento. Até o filho mais velho, que é todo certinho, que está sempre com o Pai e cumpre com todos os seus preceitos, é também rebelde à sua maneira: rebela-se contra a misericórdia do Pai, não se alegra com Ele, quando volta o irmão mais novo. Está perto, mas ao mesmo tempo tão longe do coração do Pai, poderíamos dizer.

No seu livro “A Volta do Filho Pródigo”, Henri J. M. Nouwen diz que o filho mais velho está tão perdido quanto o mais novo. É o elemento que eles têm em comum e que pode escapar a um olhar superficial.

Quando buscamos a nossa dignidade nas conquistas e realizações pessoais, somos mais parecidos com o filho mais novo. Quando buscamos a nossa segurança em normas e tradições, em si mesmas boas, e acabamos nos tornando juízes dos nossos irmãos, somos como o irmão mais velho. Em ambas as situações, perdemos de vista o fundamental em nossas vidas: somos filhos do Pai, recebemos como presente imerecido o que nenhuma conquista pessoal, o que nenhum cumprimento de normas ou tradições poderia nos dar – a filiação divina.

Por último, a modo de provocação: já pensou em se identificar, não com o filho mais novo, nem com o filho mais velho, e sim com o próprio Pai da parábola? Todos nós estamos chamados a dar fruto em nossas vidas, a exercer de alguma forma a paternidade e a maternidade, o que implica sermos acolhedores, pacientes, compreensivos. Implica sermos bons, sem medo de passarmos por bobos.

Vêm-me à mente agora a imagem de São Felipe de Neri, a sua paciência para com as crianças do Oratório, que não eram nada “boazinhas”. Que tal pesquisar sobre a vida deste grande santo? Quem sabe, nesta Quaresma, o Senhor esteja lhe pedindo para ser um pouco mais como o Pai, a você que tem um pouco do mais novo e do mais velho da parábola do Filho Pródigo?

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Martin Ugarteche Fernández
Membro do Sodalício de Vida Cristã desde 1996. Nascido no Peru em 1978, mora no Brasil desde 2001. Atualmente mora em Petrópolis, onde é professor de filosofia na Universidade Católica e trabalha em diversos projetos de evangelização da cultura.

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