Renúncia aos bens e perfeição (Mt 19,21)

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“Jesus lhe respondeu: “Se queres ser perfeito, vai, vende o que possuis e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois vem e segue-me”” (Mt 19,21)

Contexto: O personagem central da passagem, que vai ao encontro de Jesus, é descrito por Mateus como um Neani&skoj, um jovem que não fez ainda 30 anos.

Ulrich (Cfr. Mateo, Vol. 3, p. 162) comenta que, para quem prestou atenção ao Sermão da Montanha, os preceitos da lei apresentam um horizonte praticamente infinito, perante o qual é difícil dizer, como o jovem da passagem, que já fazemos tudo isso. Porém, Mateus leva a sério a afirmação do jovem, como a de alguém que sinceramente busca o que é melhor.

Sobre o conceito de perfeição (te&leioj), Mateus, inserido numa tradição linguística bíblica e judia, refere-se à “obediência íntegra e indivisa a Deus” (Lug. Cit.).

Além deste aspecto, outros três completam o significado de perfeição para Mateus:

  1. Momento qualitativo: renúncia aos bens como ênfase no mandamento do amor, que para Jesus não conhece limites.
  2. Momento quantitativo: Jesus oferece ao jovem um preceito singular, que faz do amor algo concreto e radical.
  3. A perfeição consiste, finalmente, na adesão a Jesus, expressada no convite a0kolouqei moi e na vocação dos discípulos (4,18-22). Não significa para Mateus um grau supremo ao qual estão chamados alguns cristãos, os melhores: “Todos estão chamados à perfeição. Ei0 qeleij não significa aqui, como tampouco no v. 17, que o jovem rico seja livre de fazer caso omisso à proposta que Jesus lhe faz. A renúncia aos bens, da qual fala agora Jesus, é tão pouco facultativa como o seguimento ou o amor aos inimigos” (Ob. Cit., p. 164).

Ainda com relação ao ponto 3, Ulrich explica que na comunidade cristã à qual se dirige Mateus, a maioria dos membros eram sedentários, os quais prestavam hospitalidade a um grupo minoritário de radicais itinerantes (10,40-42). Nesse sentido, embora o imperativo de renúncia aos bens não era uma lei para todos, não deve ser interpretado como conselho para alguns poucos, mas como uma chamada a todos para percorrer esse caminho na medida do possível, já que para Mateus “o tesouro no céu e o tesouro na terra excluem-se entre si (Cfr. 6,19-21). “Na questão do dinheiro está em jogo a condição humana” (Vol. 1, p. 503). Isto o entende, em todo caso, o jovem rico, e por isso vai-se embora entristecido” (Ob. Cit., p. 165).

Finalmente, entre as interpretações da passagem ao longo dos séculos, fazemos referência a uma contemporânea, citada por Ulrich no seu livro sobre o Evangelho de Mateus. Trata-se da interpretação proposta pelo Papa João Paulo II na sua encíclica Veritatis Splendor, a qual deixa de lado a distinção entre “preceito” e “conselho”, entendendo o convite de Mt 19,21 como uma proposta de amor válida para todos, já que todos estão chamados à perfeição do amor (n.19-21).

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Martin Ugarteche Fernández
Membro do Sodalício de Vida Cristã desde 1996. Nascido no Peru em 1978, mora no Brasil desde 2001. Atualmente mora em Petrópolis, onde é professor de filosofia na Universidade Católica e trabalha em diversos projetos de evangelização da cultura.

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