Tenho vontade de sumir!

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Por que, ao invés de “sumir”, você não tenta “assumir” a cruz que Deus reservou para você?

Frases como a do título do nosso artigo de hoje expressam a situação difícil pela qual uma pessoa pode estar passando. Os contextos familiar, laboral, das nossas relações, podem se tornar às vezes asfixiantes.

Doenças, pessoas problemáticas com as quais temos que lidar, experiências exigentes que nos levam ao limite da nossa resistência. Os fracassos, que também fazem parte da vida. O ritmo acelerado da vida nas cidades, as grandes concentrações de pessoas, os meios de transporte sempre cheios e as pessoas à nossa volta, geralmente estressadas e impacientes.

São muitas as situações e contextos que poderiam levar uma pessoa a dizer “Tenho vontade de sumir”.

Um primeiro conselho que eu daria a alguém que compartilhasse comigo a sua vontade de sumir é colocar num papel qual é ou quais são as situações, pessoas, experiências concretas que mais a exigem. Provavelmente nem todas serão igualmente exigentes. Valeria a pena colocar três estrelinhas ao lado das mais exigentes, duas naquelas um pouco menos exigentes e finalmente uma naquelas um pouquinho exigentes.

O princípio que está por trás deste exercício é o da importância que tem para cada um de nós fazer o esforço de considerar objetivamente as nossas experiênciastirando um pouco a carga emocional, o peso subjetivo que colocamos em cada uma delas.

Depois desse esforço de objetivação, um segundo passo seria considerar se podemos evitar alguma dessas situações. Como cristãos, sabemos que a Cruz é uma realidade que sempre estará presente em nossas vidas (cf. Mt 10,38). Porém, às vezes podemos cair na soberba de assumir cargas que vão além das nossas capacidades. Diante do Senhor, em oração, e se possível com o conselho de alguém mais experiente na vida cristã, é necessário que façamos um discernimento sobre o que devemos assumir e o que podemos deixar de lado.

É possível que certas experiências exigentes sejam realmente Cruzes que o Senhor nos pede para carregar. Por que o Senhor permite que isso aconteça? Essa é uma pergunta que cada um de nós pode levar à oraçãoao seu diálogo íntimo com Deus. Sabemos que Ele nunca nos abandona, que seu fardo é leve e seu jugo é suave (cf. Mt 11,28-30). Por mais que às vezes sintamos que Ele nos abandona, a sua graça sempre nos ajuda a passar pelas provas da vida.

São Paulo, em uma ocasião, fazendo referência a uma experiência semelhante, escreveu em uma das suas cartas que pediu ao anjo do Senhor que o livrasse desse “aguilhão da carne”, mas que o Senhor lhe respondeu: “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder” (2Cor 12,9).

Um último conselho que posso dar a todos que têm “vontade de sumir” é considerar dedicar mais tempo à oração. Frequentemente, nos momentos difíceis da vida, e quando mais precisamos, acabamos descuidando dos nossos espaços de encontro com o Senhor. Mas é justamente o contrário que devemos fazer! Dedicar-se mais à oração, ir à Missa com mais frequência, visitar o Santíssimo, rezar o Terço, ler as Sagradas Escrituras, fazer um exame de consciência diário, são práticas que nos ajudam a encontrar o Senhor que vem nos abraçar e acolher precisamente no coração daquelas situações difíceis, das quais queremos fugir.

Finalmente, é muito bom também tirar alguns dias para mudar de ares, para visitar amigos e familiares em outra cidade, para fazer uma romaria a algum Santuário ou lugar de devoção, para apreciar a beleza da natureza, que no Brasil nos oferece tantas possibilidades. E por que não fazer um retiro espiritual, dedicar alguns dias do ano a renovar a nossa vida espiritual, tomar o pulso do nosso amadurecimento na fé?

Tudo isso não implica “sumir”, mas recobrar forças para “assumir” com fé, esperança e caridade aquelas realidades exigentes que também precisam ser iluminadas pelo Evangelho. O Espírito Santo nos iluminará e mostrará os caminhos, colocará as palavras em nossa boca para que possamos ser apóstolos do Senhor no nosso dia a dia, com paciência e humildade.

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Martin Ugarteche Fernández
Membro do Sodalício de Vida Cristã desde 1996. Nascido no Peru em 1978, mora no Brasil desde 2001. Atualmente mora em Petrópolis, onde é professor de filosofia na Universidade Católica e trabalha em diversos projetos de evangelização da cultura.

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