V DOMINGO DO TEMPO PASCAL – “Eu sou a videira e vós os ramos”

1898

I. A PALAVRA DE DEUS

At 9, 26-31: “Contou-lhes como tinha visto o Senhor no caminho

Naqueles dias,26Saulo chegou a Jerusalém e procurava juntar-se aos discípulos. Mas todos tinham medo dele, pois não acreditavam que ele fosse discípulo. 27Então Barnabé tomou Saulo consigo, levou-o aos apóstolos e contou-lhes como Saulo tinha visto o Senhor no caminho, como o Senhor lhe havia falado e como Saulo havia pregado, em nome de Jesus, publicamente, na cidade de Damasco.

28Daí em diante, Saulo permaneceu com eles em Jerusalém e pregava com firmeza em nome do Senhor. 29Falava também e discutia com os judeus de língua grega, mas eles procuravam matá-lo. 30Quando ficaram sabendo disso, os irmãos levaram Saulo para Cesareia, e dali o mandaram para Tarso. 31A Igreja, porém, vivia em paz em toda a Judeia, Galileia e Samaria. Ela consolidava-se e progredia no temor do Senhor e crescia em número com a ajuda do Espírito Santo.

Sal 21, 26-32: “Senhor sois meu louvor em meio à grande assembleia!”

26bSois meu louvor em meio à grande assembleia;
cumpro meus votos ante aqueles que vos temem!
27Vossos pobres vão comer e saciar-se,
e os que procuram o Senhor o louvarão;
‘Seus corações tenham a vida para sempre!’

28Lembrem-se disso os confins de toda a terra,
para que voltem ao Senhor e se convertam,
e se prostrem, adorando, diante dele
todos os povos e as famílias das nações.
30Somente a ele adorarão os poderosos,
e os que voltam para o pó o louvarão.

Para ele há de viver a minha alma,
31toda a minha descendência há de servi-lo;
às futuras gerações anunciará
32o poder e a justiça do Senhor;
ao povo novo que há de vir, ela dirá:
‘Eis a obra que o Senhor realizou!’

1Jo 3, 18-24: “Este é o seu mandamento: que creiamos e nos amemos uns aos outros

18Filhinhos, não amemos só com palavras e de boca, mas com ações e de verdade!

19Aí está o critério para saber que somos da verdade e para sossegar diante dele o nosso coração, 20pois, se o nosso coração nos acusa, Deus é maior que o nosso coração e conhece todas as coisas.

21Caríssimos, se o nosso coração não nos acusa, temos confiança diante de Deus. 22E qualquer coisa que pedimos recebemos dele, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos o que é do seu agrado.

23Este é o seu mandamento: que creiamos no nome do seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, de acordo com o mandamento que ele nos deu.

24Quem guarda os seus mandamentos permanece com Deus e Deus permanece com ele. Que ele permanece conosco, sabemo-lo pelo Espírito que ele nos deu.

Jo 15, 1-8:Quem permanecer em mim, e eu nele, produz muito fruto

Naquele tempo, Jesus disse a seus discípulos:

1‘Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o agricultor.

2Todo ramo que em mim não dá fruto ele o corta; e todo ramo que dá fruto, ele o limpa, para que dê mais fruto ainda.

3Vós já estais limpos por causa da palavra que eu vos falei. 4Permanecei em mim e eu permanecerei em vós.

Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto, se não permanecerdes em mim.

5Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permaneceu em mim, e eu nele, esse produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.

6Quem não permanecer em mim, será lançado fora como um ramo e secará. Tais ramos são recolhidos, lançados no fogo e queimados.

7Se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes e vós será dado. 8Nisto meu Pai é glorificado: que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos».

II. COMENTÁRIOS

Uma última vez no Evangelho de São João aparece o Senhor pronunciando aquele solene “Eu sou” para revelar, mediante uma comparação, uma verdade profunda de si mesmo. Nesta ocasião dirá: «Eu sou a verdadeira videira, e meu Pai é o agricultor». O momento em que pronuncia aquele ensinamento também é solene: é a noite prévia à sua Paixão e Morte, a noite da última Ceia, noite em que oferecendo-se a si mesmo como o novo Cordeiro Pascal cuja Carne deve ser comida (ver Lc 22, 19; Jo 6, 53-56), sela uma Nova Aliança com seu Sangue (ver Lc 22, 20).

O Senhor introduz agora outra novidade revolucionária. Até então Israel tinha sido a vinha do Senhor: «Uma vinha do Egito vós arrancastes; expulsastes povos para a replantar. O solo vós lhes preparastes; ela lançou raízes nele e se espalhou na terra. As montanhas se cobriram com sua sombra, seus ramos ensombraram os cedros de Deus. Até o mar ela estendeu sua ramagem, e até o rio os seus rebentos.» (Sal 79, 9-12). E assim se consideravam os israelitas: «a vinha do Senhor é a Casa de Israel» (Is 5, 7).

Entretanto, de «cepa deliciosa» (Is 5, 2) e «seleta» tornou-se «videira bastarda» (Jer 2, 21), pois em vez de dar uvas saborosas e doces deu uvas azedas, frutos ácidos e amargos: «esperava deles justiça, e há iniquidade; honradez, e há gritos de socorro» (Is 5, 7; ver Is 5, 1-3; Sal 80, 13-16; Ez 15, 1-6; 19, 10-14). Deus, por meio de seu profeta, lamenta-se ao ver estes frutos de injustiça: «Que se poderia fazer por minha vinha, que eu não tenha feito? Por que, quando eu esperava vê-la produzir uvas boas, só deu uva azeda? » (Is 5, 4).

Que mais fez Deus? O Pai enviou seu próprio Filho. Ele é agora a “cepa seleta” e “semente legítima” que Deus plantou em nosso chão. Ele é a videira verdadeira, legítima, a salvação já não vem da pertença ao povo de Israel, mas sim da pertença a Cristo. Ele veio realizar em si mesmo, em plenitude, aquilo que Israel estava chamado a ser: a videira fecunda de Deus, fecunda em obras de justiça e caridade. Ele em si mesmo é a videira que dá frutos ótimos, Ele é quem glorifica ao Pai com os frutos de sua amorosa obediência, levando a cabo com perfeição seus desígnios reconciliadores.

Pois bem, o dono da vinha, que o Senhor Jesus identifica com seu Pai, espera evidentemente que sua vinha produza fruto abundante e do melhor. Quais são os frutos que o dono da vinha espera dos brotos? São frutos de justiça e honradez (ver Is 5, 7), frutos que procedem de uma vida aderida a Cristo e da permanência de suas palavras no discípulo, quer dizer, da obediência a seus ensinamentos, da obediência aos mandamentos divinos, frutos de santidade e de caridade. É o que assinala também São João em sua primeira carta (2ª. leitura): permanece em Deus quem guarda seus mandamentos. E permanecendo em Deus o ser humano se desdobra e se torna fecundo, dando glória a Deus com sua vida, santidade e apostolado.

Como o dono da vinha se assegura de uma boa colheita? Para que a videira produza bom fruto é necessário podá-la e limpá-la regularmente. A poda adequada dá vigor à planta, melhorando seu desenvolvimento, floração e fecundidade. Um ramo velho, prejudicado ou doente, só tira forças da videira. Portanto, todo ramo que não dá fruto deve ser podado e todo o que dá fruto, limpo, «para que dê mais fruto».

Por outro lado, é evidente que para dar fruto os ramos devem permanecer unidos à videira. Um ramo desprendido de seu tronco não tem possibilidade alguma de subsistir e menos ainda de produzir frutos por si mesmo. Só seca e murcha. De modo análogo, o discípulo deve permanecer sempre unido ao Senhor Jesus para dar fruto. Sem o Senhor o discípulo não pode fazer nada. Este é o ensinamento fundamental desta passagem: a vida e fecundidade do discípulo dependem absolutamente do Senhor e de sua união vital com Ele.

Para insistir na necessidade desta união com Ele o Senhor ao mesmo tempo adverte sobre o radical fracasso que espera quem se separa Dele e pretende dar fruto por si mesmo: «Quem não permanecer em mim, será lançado fora como um ramo e secará. Tais ramos são recolhidos, lançados no fogo e queimados ». É, pois, impossível que o discípulo dê fruto por sua conta e apenas com suas forças.

III. LUZES PARA A VIDA CRISTÃ

Sou cristão e católico porque um dia fui batizado. Mas, sou verdadeiramente discípulo de Cristo?

Diz o Senhor: «Nisto meu Pai é glorificado: que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos » (Jo 15, 8). Para quem ama a Deus e deseja glorificá-lo com toda sua vida, ser discípulo de Cristo é fundamental.

Discípulo é aquele que tem um mestre, porque busca aprender tudo o que ele, a partir de sua sabedoria e experiência, lhe ensina. Porque, mais ainda, quer assemelhar-se a ele, quer ser como ele. Por outro lado, o verdadeiro mestre é o que faz muito mais que repartir um conjunto de conhecimentos: ensina uma sabedoria profunda, um caminho de superação e realização pessoal, uma moral que se reflete em seu próprio modo de vida, etc. O discípulo descobre em tal mestre um modelo apelante, digno de ser imitado e seguido. Admira-o, encontra nele respostas a seus próprios desejos e buscas de verdade e de felicidade, seu modo de vida o atrai.

Entre o mestre e o discípulo estabelece-se um vínculo de confiança, assim como uma profunda sintonia. O discípulo, porque confia em seu mestre, porque sabe que o levará pelo rumo que conduz a seu máximo bem, faz o que lhe diz, presta-lhe obediência embora às vezes isso implique em renúncias exigentes e custosas.

Agora posso me perguntar: Sou verdadeiramente discípulo de Cristo? Procuro conhecer seus ensinamentos e viver de acordo com eles? Ou sou cristão só de nome?

Tomemos consciência de que não basta dizer: “eu creio nele”. Não é discípulo quem diz que crê, mas quem vive como ensina Cristo. São Tiago, o Apóstolo, dizia: «Tu crês que há um só Deus? Fazes bem! Mas também os demônios crêem isso, e estremecem de medo.» (Tg 2, 19) Não basta, pois, crer. São necessários os frutos, as obras que manifestam a fé. É necessário «viver como Ele viveu» (1Jo 2, 6), viver de acordo com os ensinamentos que Ele proclamou.

Para ser discípulo de Cristo é necessária uma adesão afetiva a sua Pessoa e a seus ensinamentos. Como é importante encontrar-nos com Ele todos os dias, ler os Evangelhos e fazer silêncio para escutar Sua voz e procurar pôr em prática seus ensinamentos!

IV. PADRES DA IGREJA

São Cirilo da Alexandria: «O Senhor, querendo nos ensinar a necessidade que temos de estar unidos a Ele pelo amor, e o grande proveito que nos provém desta união, dá a si mesmo o nome de videira, e chama de sarmentos (ramos) os que estão enxertados e como que introduzidos nele, e já participam de sua própria natureza pela comunicação do Espírito Santo (já que é o santo Espírito de Cristo que nos une a Ele). A adesão dos que se acercam da videira é uma adesão de vontade e de propósito, a união da videira conosco é uma adesão de afeto e de natureza. Movidos por nosso bom propósito, aproximamo-nos de Cristo pela fé e, assim, convertemo-nos em Sua linhagem, obtendo Dele a dignidade da adoção filial. Com efeito, como diz são Paulo, quem se une ao Senhor é um espírito com Ele».

Santo Hilário: «“Quem come minha carne e bebe meu sangue permanece em mim, e eu nele” (Jo 6, 56). Para estar nEle, Ele tem que estar em nós, já que só Ele mantém assumida em sua pessoa a carne dos que recebem a sua. Já antes tinha ensinado a perfeita unidade que este Sacramento [a Eucaristia] proporciona, ao dizer: “Como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo por meio do Pai, assim aquele que de mim se alimenta viverá por meio de mim.” (Jo 6, 57). Ele, portanto, vive pelo Pai; e, do mesmo modo que Ele vive pelo Pai, assim também nós vivemos por sua Carne».

São Cirilo da Alexandria: «Fomos regenerados por Ele e nele, no Espírito, para darmos frutos de vida, não daquela vida antiga e já caduca, mas sim daquela outra que consiste na novidade de vida e no amor para com Ele. Nossa permanência neste novo ser depende de que estejamos em certo modo enxertados nele, de que permaneçamos tenazmente aderidos ao santo mandamento novo que nos deu. E cabe a nós conservar com solicitude este título de nobreza, não permitindo absolutamente que o Espírito que habita em nós seja minimamente contristado, já que por Ele Deus habita em nós».

V. CATECISMO DA IGREJA

“Quem permanece em mim como eu nele, esse dá muito fruto”

  1. Desde o princípio, Jesus associou os discípulos à sua vida. Revelou-lhes o mistério do Reino: deu-lhes parte na sua missão, na sua alegria e nos seus sofrimentos. Jesus fala de uma comunhão ainda mais íntima entre Ele e os que O seguem: «Permanecei em Mim, como Eu em vós […]. Eu sou a videira, vós os ramos»(Jo 15, 4-5). E anuncia uma comunhão misteriosa e real entre o seu próprio Corpo e o nosso: «Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue permanece em Mim e Eu nele» (Jo 6, 56).

755 «A verdadeira Videira é Cristo: é Ele que dá vida e fecundidade aos brotos, isto é, a nós que, pela Igreja, permanecemos n’Ele, e sem o Qual nada podemos fazer».

  1. Jesus diz: «Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permaneceu em mim, e eu nele, esse produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer»(Jo 15, 5). O fruto, a que se faz referência nesta palavra, é a santidade de uma vida fecundada pela união com Cristo. Quando cremos em Jesus Cristo, comungamos nos seus mistérios e guardamos os seus mandamentos, o Salvador vem em pessoa amar em nós o seu Pai e os seus irmãos, o nosso Pai e os nossos irmãos. A sua pessoa toma-se, graças ao Espírito, a regra viva e interior do nosso agir. «É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei» (Jo 15, 12).

Graças ao poder do Espírito Santo

  1. «É graças a esta força do Espírito que os filhos de Deus podem dar fruto. Aquele que nos enxertou na verdadeira Videira far-nos-á dar «os frutos do Espírito: caridade, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio».

1988: «Pelo poder do Espírito Santo, nós tomamos parte na paixão de Cristo, morrendo para o pecado, e na sua ressurreição, nascendo para uma vida nova. Somos os membros do seu corpo, que é a Igreja, os brotos enxertados na videira, que é Ele próprio».

VI. TEXTOS DA ESPIRITUALIDADE SODÁLITE

«Cristo é a verdadeira videira, que dá vida e fecundidade aos ramos, quer dizer, a nós, que pela Igreja permanecemos nEle e sem o Qual nada podemos fazer».

«O Senhor — querendo nos ensinar a necessidade que temos de estar unidos a Ele pelo amor, e o grande proveito que nos provém desta união — dá a si mesmo o nome de videira, e chama de ramos os que estão enxertados e como que introduzidos nele, e já participam de sua própria natureza pela comunicação do Espírito Santo».  O próprio Senhor nos ensina naquela comparação que quem permanece nEle como o ramo permanece na videira, dará cada vez «mais fruto» e «muito fruto», um fruto que permanecerá por toda a eternidade. Com efeito, se permanecermos unidos ao Senhor, nutrindo-nos de seu amor assim como o ramo se nutre da seiva vital da videira, poderemos dar muito fruto para tornar realidade também hoje aquilo que são Lucas escreveu da Igreja nascente: «Ela se edificava e progredia no temor do Senhor, e crescia em número com a ajuda do Espírito Santo».

Quando o ramo dá fruto? Quando permanece unido à videira.  Do mesmo modo cada um de nós só pode dar fruto se permanecer no Senhor, e o Senhor em cada um.  Esta é uma chave que não podemos esquecer jamais, especialmente quando nos vem a tentação de abandonar a oração ou descuidar de nossa vida sacramental.

Como é importante, para permanecer no Senhor, nos encontrarmos com Ele todos os dias, escutar sua voz e procurar pôr em prática seus ensinamentos! Quão importante é nos aderirmos a Ele e nos abrirmos à força de sua graça, para que possamos dar fruto! Quantas vezes tivemos a experiência de que sozinhos não podemos! Instruídos pela experiência, como não fazer caso do que Ele ensina? Ele é a Videira e eu um ramo, assim, se não me encontrar com Ele todos os dias na oração, se não me nutrir de sua graça nos sacramentos, se não me deixar “tocar” profundamente por sua palavra e acender pelo fogo divino de seu Amor, que frutos produzirei?

Por outro lado, ao permanecer nele e Ele em mim, ao inundar-me com sua Presença, com sua graça, com sua vida e amor, o Senhor me faz fecundo para o apostolado, pois só com minha presença, seja por meus gestos, palavras ou ações, minha vida se converterá em uma intensa irradiação de Cristo.  Assim o Pai será glorificado também pelos frutos de meu apostolado.  Neste sentido não esqueçamos que o Pai, convidando-nos a viver intensamente esta comunhão com seu Filho mediante a mútua permanência no amor, «nos pede uma real colaboração com a sua graça, convidando-nos por conseguinte a investir, no serviço pela causa do Reino, todos os nossos recursos de inteligência e de ação». (Caminho para Deus #127)

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