XI DOMINGO DO TEMPO COMUM: “Teus pecados estão perdoados”

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I. A PALAVRA DE DEUS

2º Livro de Samuel 12,7-10.13: O Senhor perdoou o teu pecado, de modo que não morrerás!

Naqueles dias:

7Natã disse a Davi:

–  ‘Esse homem és tu! Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: «Eu te ungi como rei de Israel, e salvei-te das mãos de Saul. 8Dei-te a casa do teu senhor e pus nos teus braços as mulheres do teu senhor, entregando-te também a casa de Israel e de Judá; e, se isto te parece pouco, vou acrescentar outros favores. 9Por que desprezaste a palavra do Senhor, fazendo o que lhe desagrada? Feriste à espada o hitita Urias, para fazer da sua mulher a tua esposa, fazendo-o morrer pela espada dos amonitas. 10Por isso, a espada jamais se afastará de tua casa, porque me desprezaste e tomaste a mulher do hitita Urias para fazer dela a tua esposa.»

 13Davi disse a Natã;

– ‘Pequei contra o Senhor’.

Natã respondeu-lhe:

– ‘De sua parte, o Senhor perdoou o teu pecado, de modo que não morrerás! Entretanto, por teres ultrajado o Senhor com teu procedimento o filho que te nasceu morrerá’.

Salmo 32(31),1-2.5.7.11: Eu confessei, afinal, meu pecado e perdoastes, Senhor, minha falta.

1Feliz o homem que foi perdoado
e cuja falta já foi encoberta!
2Feliz o homem a quem o Senhor
não olha mais como sendo culpado,
e em cuja alma não há falsidade!

5Eu confessei, afinal, meu pecado,
e minha falta vos fiz conhecer.
Disse: ‘Eu irei confessar meu pecado!’
E perdoastes, Senhor, minha falta.

7Sois para mim proteção e refúgio;
na minha angústia me haveis de salvar,
e envolvereis a minha alma no gozo.
11Regozijai-vos, ó justos, em Deus,
e no Senhor exultai de alegria!
Corações retos, cantai jubilosos!

Carta aos Gálatas 2,16.19-21: Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim.

Irmãos:

16Sabendo que ninguém é justificado por observar a Lei de Moisés, mas por crer em Jesus Cristo, nós também abraçamos a fé em Jesus Cristo. Assim fomos justificados pela fé em Cristo e não pela prática da Lei, porque pela prática da Lei ninguém será justificado. 19Aliás, foi em virtude da Lei que eu morri para a Lei, a fim de viver para Deus. Com Cristo, eu fui pregado na cruz. 20Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim. Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e por mim se entregou. 21Eu não desprezo a graça de Deus. Ora, se a justiça vem pela Lei, então Cristo morreu inutilmente.

Evangelho segundo S. Lucas 7,36-50.8,1-3: Os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados porque ela mostrou muito amor.

Naquele tempo:

36Um fariseu convidou Jesus para uma refeição em sua casa. Jesus entrou na casa do fariseu e pôs-se à mesa.

37Certa mulher, conhecida na cidade como pecadora, soube que Jesus estava à mesa, na casa do fariseu. Ela trouxe um frasco de alabastro com perfume, 38e, ficando por detrás, chorava aos pés de Jesus; com as lágrimas começou a banhar-lhe os pés, enxugava-os com os cabelos, cobria-os de beijos e os ungia com o perfume.

39Vendo isso, o fariseu que o havia convidado ficou pensando:

– ‘Se este homem fosse um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele, pois é uma pecadora.’

40Jesus disse então ao fariseu:

– ‘Simão, tenho uma coisa para te dizer.’

Simão respondeu:

– ‘Fala, mestre!’

41‘Certo credor tinha dois devedores; um lhe devia quinhentas moedas de prata, o outro cinquenta. 42Como não tivessem com que pagar, o homem perdoou os dois. Qual deles o amará mais?’

43Simão respondeu:

– ‘Acho que é aquele ao qual perdoou mais.’

Jesus lhe disse:

–’Tu julgaste corretamente.’

44Então Jesus virou-se para a mulher e disse a Simão:

– ‘Estás vendo esta mulher? Quando entrei em tua casa, tu não me ofereceste água para lavar os pés; ela, porém, banhou meus pés com lágrimas e enxugou-os com os cabelos. 45Tu não me deste o beijo de saudação; ela, porém, desde que entrei, não parou de beijar meus pés. 46Tu não derramaste óleo na minha cabeça; ela, porém, ungiu meus pés com perfume. 47Por esta razão, eu te declaro: os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados porque ela mostrou muito amor. Aquele a quem se perdoa pouco mostra pouco amor.’

48E Jesus disse à mulher:

– ‘Teus pecados estão perdoados.’

49Então, os convidados começaram a pensar:

– ‘Quem é este que até perdoa pecados?’

50Mas Jesus disse à mulher:

– ‘Tua fé te salvou. Vai em paz!’

8,1Depois disso, Jesus andava por cidades e povoados, pregando e anunciando a Boa Nova do Reino de Deus. Os doze iam com ele; 2e também algumas mulheres que haviam sido curadas de maus espíritos e doenças: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios; 3Joana, mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes; Susana, e várias outras mulheres que ajudavam a Jesus e aos discípulos com os bens que possuíam.

II. COMENTÁRIOS

Por seus ensinamentos e milagrosas curas a fama e autoridade de Jesus perante o povo aumentava cada vez mais (ver Lc 4, 31; 36-37; 5, 15). Os ciumentos fariseus também se aproximam do Senhor para escutá-lo, embora usualmente o fizessem com a intenção de desautorizar o novo Mestre e sua doutrina perante o povo.

Em uma ocasião um fariseu de nome Simão rogou ao Senhor Jesus que aceitasse o convite para jantar em sua casa (Evangelho). Podemos supor que o fazia com a intenção de ter um espaço sereno para conversar ou discutir sobre diversos temas religiosos e assim poder conhecer melhor sua doutrina e seu modo de vida. Ao que parece Simão não estava muito convencido de que Jesus fosse um profeta, como o povo andava dizendo. Seria Jesus verdadeiramente um enviado de Deus? Ou um farsante? Um jantar seria uma boa ocasião para resolver esta questão.

O Senhor atende ao convite. Simão o recebe sem os típicos gestos de hospitalidade com os quais o anfitrião honrava um convidado especial: oferecer água para lavar os pés do pó do caminho, o beijo como sinal de amizade, a unção da cabeça com perfume. O Senhor atribuirá posteriormente o “esquecimento” destes gestos ao “pouco amor” que lhe tem Simão.

De um momento para outro parece que todas as suas inquietações se confirmam quando “uma mulher da cidade, uma pecadora”, consegue entrar na casa do fariseu até inclinar-se aos pés de Jesus. Ninguém pensou tirá-la dali. Todos observam como esta mulher, sem deixar de chorar e sem dizer palavra alguma, molha os pés do mestre com suas lágrimas, seca-os com seus longos cabelos, beija-os e os unge com perfume.

Que tipo de pecadora ela era? «Para os fariseus, pecadora tinha um significado variado, podendo designar tanto uma mulher de perversos costumes como uma mulher que não observasse as prescrições farisaicas… Seguindo um caminho intermédiário, cabe presumir que a mulher que se introduziu na ceia de Simão devia ser pessoa de reputação duvidosa, já que se fosse uma verdadeira meretriz, dificilmente os parentes do fariseu teriam deixado que ela penetrasse na casa, pois o escândalo diante dos convidados teria sido muito grave». (G. Ricciotti)

Seja como for, Simão conhece esta mulher e sua condição de pecadora pública, enquanto que o Senhor Jesus não teria como saber nem deduzir tal condição. Com estes presupostos, Simão deduz para si: «Se este homem fosse um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele, pois é uma pecadora». De outro modo, não permitiria que o tocasse para não ser manchado por sua impureza.

O Senhor, conhecendo o julgamento secreto de Simão, aproveita a ocasião para lhe propor uma brevíssima parábola: «Certo credor tinha dois devedores; um lhe devia quinhentas moedas de prata, o outro cinquenta. Como não tivessem com que pagar, o homem perdoou os dois». Imediatamente faz uma pergunta: «Qual deles o amará mais?» A resposta é óbvia: «aquele ao qual perdoou mais».

Tendo respondido Simão como era de se esperar, o Senhor aplica a parábola à situação concreta: «Quando entrei em tua casa, tu não me ofereceste água para lavar os pés; ela, porém, banhou meus pés com lágrimas e enxugou-os com os cabelos. 45Tu não me deste o beijo de saudação; ela, porém, desde que entrei, não parou de beijar meus pés. 46Tu não derramaste óleo na minha cabeça; ela, porém, ungiu meus pés com perfume». A pecadora pública é quem na parábola deve quinhentos denarios, Simão quem deve somente cinquenta. Embora a dívida varie, ambos são igualmente devedores de uma soma que não podem pagar. Ninguém pode considerar-se justo diante de Deus e que não necessita do perdão divino.

O Senhor conclui a aplicação concreta de sua parábola com a proclamação do triunfo do amor sobre o pecado, no caso da mulher, e com uma recriminação a Simão: «Seus muitos pecados estão perdoados, porque ela mostrou muito amor; mas aquele a quem se perdoa pouco mostra pouco amor ».

Temos que notar que a tradução litúrgica que utilizamos em nosso comentário varia um pouco em relação ao original grego. O tradutor provavelmente quis tornar mais lógica a conclusão do Senhor. Qual é a diferença? Ali onde diz: «mas àquele a quem se perdoa pouco mostra pouco amor», na realidade deve dizer: «mas a quem pouco se perdoa, mostra pouco amor». Portanto, a conclusão completa diz assim: «Seus muitos pecados estão perdoados, porque tem muito amor; mas a quem pouco se perdoa, mostra pouco amor».

Na primeira afirmação é o amor que leva ao perdão, enquanto que na segunda é o perdão que desperta o amor. O Senhor apresenta a relação existente entre o perdão e o amor por dois ângulos distintos. Na primeira afirmação refere-se à mulher, a quem o Senhor perdoou seus muitos pecados pelo grande amor que lhe mostrou com seus gestos de arrependimento e devoção. A segunda afirmação refere-se a Simão e é uma recriminação direta a sua falta de fé, pois ao não reconhecer o Senhor Jesus como o enviado de Deus que veio tirar o pecado do mundo, achando que não cometeu grandes pecados em sua vida, pouco amor lhe mostra. Não é que o Senhor perdoe pouco a Simão porque lhe mostrou pouco amor, mas porque ele acredita que seus pecados não são muitos ou muito graves, acredita que não necessita do perdão ou acredita-se justificado pelo fato de que cumpre a Lei. Por isso tampouco lhe mostrou o amor que aquela mulher pecadora lhe mostrou.

Em seguida o Senhor se dirige ao pecador com uma mensagem cheia de consolo e misericórdia: «Teus pecados estão perdoados». São palavras eficazes, palavras que verdadeiramente realizam o que expressam e apagam completamente os pecados cometidos. Nenhum ser humano pode libertar outro ser humano do peso de seu pecado. Só Deus é capaz de apagar toda culpa e pecado (ver Lc 5, 21) e criar um coração novo. Ao perdoar os pecados o Senhor Jesus demonstra ser mais que um profeta: Ele é Deus-conosco. Eis ali a resposta à pergunta que ficara flutuando no ambiente: «Quem é este, que até perdoa pecados?»

Deus é rico em misericórdia, Deus que perdoa os pecados a quem verdadeiramente se arrepende. (1ª. leitura)

Quem foi perdoado pelo Senhor, quem se encontrou com a infinita misericórdia do Pai que sempre é maior que os próprios pecados, está chamado a viver uma vida reconciliada, uma vida nova em Cristo (2ª. leitura). A entrega amorosa de Cristo na Cruz, ali onde estava carregando sobre si os pecados que Ele mesmo perdoou aos outros, ali onde estava reconciliando todo ser humano com Deus, Jesus chama à gratidão, chama a amar a Deus com todo o ser, a acolher a graça recebida e cooperar decididamente com ela. A gratidão ao Senhor por tanto amor mostrado no perdão misericordioso implica no compromisso sério e perseverante de lutar contra o pecado, contra os próprios vícios, contra todo mau hábito. Implica em crucificar-se com Cristo e morrer a tudo o que é morte para permitir que seja Cristo quem viva em si mesmo. Quem não tem por inútil a graça recebida, nem a joga em saco furado, aspira a viver a plena semelhança com o Senhor e emprega os meios necessários para isso.

III. LUZES PARA A VIDA CRISTÃ

Muitos católicos hoje em dia acreditam que não têm nada que mudar ou do que se arrepender, “porque sou bom e não faço mal a ninguém”. Pensando assim, levam uma vida sem comprometer-se muito com o Senhor e com Sua Igreja: “não há por que ser fanáticos”, dizem e aconselham a quem mostra muito amor ao Senhor. Pensam que fazem o suficiente quando cumprem com alguns atos piedosos, levando a vida cristã “à sua maneira”, rezando algumas orações de vez em quando, indo a Missa dominical só se não os vencer a preguiça, a fadiga ou se cruzam outras “obrigações mais importantes”. Não tomam a sério o mandamento de amar como Cristo mesmo nos amou (ver Jo 15, 11) nem o exigente chamado que Deus nos faz de ser Santos e perfeitos na caridade (ver Lev 19, 2; Mt 5, 48).

Quantas vezes nós mesmos prescindimos de Deus na vida cotidiana, vivendo como não existisse, como se Jesus Cristo não tivesse morrido e ressuscitado por nós? Quantas vezes nos negamos a perdoar a quem nos ofende ou faz mal, fechamos o coração às necessidades dos outros, insultamos e maltratamos nossos semelhantes, deixamo-nos arrastar pelas paixões mundanas? Quantas vezes dizemos crer, mas nos deparamos com a realidade de que nossos pensamentos, sentimentos ou atos não refletem suficientemente o amor que proclamamos ter ao Senhor? Quantas vezes esquecemos que no meio das trevas deste mundo não basta que “não façamos mal a ninguém”, é necessário que em nome de Cristo façamos o bem a quantos possamos, que brilhemos como tochas radiantes no meio das trevas desta perversa geração (ver Flp 2, 15), que anunciemos o Evangelho de Jesus Cristo com coragem, com palavras e com o testemunho de uma vida radical, embora isso nos traga a rejeição e a perseguição? Quem se conforma dizendo “basta não fazer mal a ninguém” e não faz mais, quem diz “sou católico, mas não praticante”, acaso não mostra pouco amor ao Senhor?

E eu, quanto amor mostro a Deus? Sou consciente de tudo o que Deus tem feito por mim? Sou consciente de quanto dano tenho feito aos outros e a mim mesmo com meus pecados? Cristo crucificado denuncia silenciosamente a gravidade de meus pecados, mas vence meu pecado levando seu amor até o extremo (ver Jo 13, 1)! Quanto me perdoou Ele e quão pouco é o amor que lhe mostro em troca, um amor que fica tantas vezes no sentimento vão sem se fazer concreto no compromisso com Cristo e sua Igreja!

Quem toma consciência da gravidade de seus pecados e humildemente se aproxima do Senhor, experimenta, como aquela mulher, como é grande o seu amor, um amor que é maior que nossos pecados mais graves ou vergonhosos. E quem experimenta esse amor cobrir a multidão dos seus pecados (ver 1 Pe 4, 8), não pode deixar de mostrar sua gratidão amando a Deus com toda sua alma, com todo seu ser e com todas as suas forças (ver Dt 6, 5), e ao próximo como a si mesmo. Quem experimenta tanto amor por parte de Deus, como não vai querer pagar amor com amor? Esse amor a Deus não se mostra em palavras bonitas, mas em um compromisso de amor com quem tanto nos amou primeiro, um amor que leva ao dom de si mesmo, a amar como Cristo com todas suas exigências radicais, leva ao contínuo e decidido esforço para cooperar com a graça recebida avançando para a meta que é a santidade, que é a perfeição da caridade. Quem verdadeiramente se experimenta tocado pelo amor de Deus não pode deixar de proclamar esse amor a todos, vê-se impulsionado a irradiá-lo e mostrá-lo em suas obras. Quem foi alcançado pelo amor de Deus não pode conformar-se sendo bom”: aspira a ser santo, a ser santa, a dar mais, a dar tudo por amor ao Senhor. Aspira a poder dizer como São Paulo: «é Cristo quem vive em mim; esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e por mim se entregou.» (Gal 2, 20).

Conscientes de nossos pecados, sofrendo por eles, humildes e penitentes procuremos também nós ao Senhor que nos espera no Sacramento da Reconciliação. Também por meio de seu sacerdote nós temos oportunidade de escutar o Senhor nos dizer: “Eu te absolvo de teus pecados”, “teus pecados estão perdoados!” E conscientes de tudo o que o Senhor nos perdoa e nos perdoou em cada confissão, mostremos mais amor por Ele empregando os meios necessários para não pecar mais, despojando-nos de nossos vícios e maus hábitos, adquirindo as virtudes que o Senhor nos propõe, dando testemunho a todos do imenso amor e misericórdia que o Senhor nos tem, ajudando com nosso apostolado a que também outros se encontrem com o amor do Senhor.

IV. PADRES DA IGREJA

São Gregório: «Com os olhos tinha gostado das coisas da terra, mas agora chorava com os mesmo em sinal de penitência. Com seus cabelos que antes tinha adornado para engalanar seu rosto, agora enxugava as lágrimas. Com a boca tinha falado palavras de vaidade, mas agora, beijando os pés do Senhor, consagra seus lábios a beijar seu caminho. Tinha usado os perfumes para dar bom aroma ao seu corpo, mas isto, que até aqui tinha empregado na vaidade, oferecia-o agora ao Senhor de uma maneira louvável. Tudo o que tinha tido para sua própria complacência agora o oferece em holocausto. Converteu todos os seus crimes em outras tantas virtudes, para consagrar-se exclusivamente ao Senhor por meio da penitência, tanto como se tinha separado Dele pela culpa».

São Gregório: «Quando o fariseu viu esta mulher, desprezou-a. E não só vituperou contra aquela mulher pecadora que tinha vindo, como também contra o próprio Jesus Cristo que a recebia. Por isso está escrito: “Vendo isso, o fariseu que o havia convidado ficou pensando: ‘Se este homem fosse um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele’ ”. Eis aí esse fariseu, verdadeiramente soberbo em si mesmo e falsamente justo, que repreende à doente por sua enfermidade, e ao médico pelo socorro. Se esta mulher tivesse vindo aos pés do fariseu, ele a teria rechaçado com desprezo porque se acreditaria manchado com os pecados alheios, pois ele não estava cheio da verdadeira justiça. Assim, alguns sacerdotes, porque executam exteriormente alguns atos de justiça, desprezam seus subordinados e desdenham os pecadores do povo. É necessário, pois, que, quando tratarmos com os pecadores, compadeçamo-nos antes de sua triste situação. Porque também nós, ou teremos cometido os mesmos pecados, ou poderemos cair. Convém distinguir com cuidado entre os vícios, que devemos rejeitar, e as pessoas, de quem devemos nos compadecer. Porque se o pecador deve ser castigado, o próximo deve ser alimentado. Mas quando ele mesmo já castigou por meio da penitência o mal que fez, nosso próximo deixa de ser pecador, porque este castiga em si o que a justiça divina repreende. O Médico se encontrava entre dois doentes: um tinha a febre dos sentidos e o outro tinha perdido o sentido da razão. Aquela mulher chorava o que tinha feito. Mas o fariseu, orgulhoso pela falsa justiça, exagerava a força de sua saúde».

Santo Ambrósio: «Como dizendo [ao fariseu]: É fácil o uso das águas, mas não o é a efusão das lágrimas. Você não empregou o que é fácil e esta derramou o que é difícil. Lavando com lágrimas os pés, purificou suas próprias manchas. Enxugou-os com seus cabelos, para receber o prêmio de suas aflições por meio deles. E como também contribuiu com eles para os pecados de sua juventude, agora os emprega em sua santificação».

São João Crisóstomo: «Assim como depois de um duro inverno aparece a calma da primavera, assim depois da efusão de lágrimas, aparece a tranquilidade e termina a tristeza que ocasionam as culpas. E assim como por meio da água e do espírito nos purificamos, assim também por meio das lágrimas e da confissão».

V. CATECISMO DA IGREJA

Só Deus perdoa os pecados

  1. Só Deus perdoa os pecados. Jesus, porque é Filho de Deus, diz de Si próprio: «O Filho do Homem tem na terra o poder de perdoar os pecados» (Mc 2, 10) e exerce este poder divino: «Teus pecados estão perdoados!» (Mc 2, 5 ; Lc7, 48). Mais ainda: em virtude da sua autoridade divina, concede este poder aos homens para que o exerçam em seu nome.
  2. Cristo quis que a sua Igreja fosse, toda ela, na sua oração, na sua vida e na sua atividade, sinal e instrumento do perdão e da reconciliação que Ele nos adquiriu pelo preço do seu sangue. Entretanto, confiou o exercício do poder de absolvição ao ministério apostólico. É este que está encarregado do «ministério da reconciliação» (2 Cor 5, 18). O apóstolo é enviado «em nome de Cristo» e «é o próprio Deus» que, através dele, exorta e suplica: «Deixai-vos reconciliar com Deus» (2 Cor 5, 20).

A contrição: a quem muito ama, muito lhe perdoa

  1. Entre os atos do penitente, a contrição ocupa o primeiro lugar. Ela é «uma dor da alma e um detestar o pecado cometido, com o propósito de não mais pecar no futuro».
  2. Quando procedente do amor de Deus, amado sobre todas as coisas, a contrição é dita «perfeita» (contrição de caridade). Uma tal contrição perdoa as faltas veniais: obtém igualmente o perdão dos pecados mortais, se incluir o propósito firme de recorrer, logo que possível, à confissão sacramental.
  3. A contrição dita «imperfeita» (ou «atrição») é, também ela, um dom de Deus, um impulso do Espírito Santo. Nasce da consideração da fealdade do pecado ou do temor da condenação eterna e das outras penas de que o pecador está ameaçado (contrição por temor). Um tal abalo da consciência pode dar início a uma evolução interior, que será levada a bom termo sob a ação da graça, pela absolvição sacramental. No entanto, por si mesma, a contrição imperfeita não obtém o perdão dos pecados graves, mas dispõe para obtê-lo no sacramento da Penitência.

A confissão dos pecados

  1. A confissão (a acusação) dos pecados, mesmo de um ponto de vista simplesmente humano, liberta-nos e facilita a nossa reconciliação com os outros. Pela confissão, o homem encara de frente os pecados de que se tornou culpado; assume a sua responsabilidade e, desse modo, abre-se de novo a Deus e à comunhão da Igreja, para tornar possível um futuro diferente.
  2. A confissão ao sacerdote constitui uma parte essencial do sacramento da Penitência: «Os penitentes devem, na confissão, enumerar todos os pecados mortais de que têm consciência, após se terem seriamente examinado, mesmo que tais pecados sejam secretíssimos e tenham sido cometidos apenas contra os dois últimos preceitos do Decálogo[1]; porque, por vezes, estes pecados ferem mais gravemente a alma e são mais perigosos que os cometidos à vista de todos»:

«Quando os fiéis se esforçam por confessar todos os pecados de que se lembram, não se pode duvidar de que os apresentam todos ao perdão da misericórdia divina. Os que procedem de modo diverso, e conscientemente ocultam alguns, esses não apresentam à bondade divina nada que ela possa perdoar por intermédio do sacerdote. Porque, “se o doente tem vergonha de descobrir a sua ferida ao médico, a medicina não pode curar o que ignora”» (São Jerônimo).

VI. TEXTOS DA ESPIRITUALIDADE SODALITE

“A mim vem todo mortal por causa de suas culpas; seus delitos os afligem, mas eu os perdôo. Eu perdôo todas as suas culpas, curo todas as suas enfermidades; resgato sua vida da fossa e encho-o de graça e de ternura; eu sacio de bens seus desejos.

Sou compassivo e misericordioso, lento à ira e rico em clemência. Não te estou acusando, nem te guardo rancor perpétuo; não te trato como merecem teus pecados nem te pago segundo tuas culpas. Eu afasto de mim tuas rebeldias. Eu tenho na terra poder para perdoar pecados e por isso te digo: ânimo!, filho, teus pecados te são perdoados.

Feliz é você a quem perdoei sua culpa e cobri seu pecado. Feliz é você, pois não levo em conta o delito. Eu te lavarei com água pura e ficarás purificado; eu te purificarei de todas as tuas impurezas e de todas as tuas imundícies. E te darei um coração novo, tirarei de ti o coração de pedra e te darei um coração de carne.

Eu me comprazo por ti com um amor eterno. Minhas entranhas se revolvem, comovo-me, porque tenho vísceras de misericórdia. Ternura por ti não me falta, porque como um pai sente ternura por seus filhos, assim eu, que estou cheio de ternura, sinto ternura por ti. Eu sou o Senhor dos perdões, clemente, lento para a cólera e rico em bondade. Nunca te abandonei, pois eu nunca me esqueceria de ti, porque sei que és feito de barro.

Minha misericórdia dura para sempre, passa de filhos a netos para os que guardam minha aliança e cumprem meus mandamentos. Minha ternura e misericórdia são eternas e não me lembro de seus pecados, mas me lembro de ti segundo meu amor.

Perdôo-te teus muitos pecados, porque mostraste muito amor”.

(P. Jaime Baertl, Eu te perdôo em “Estou à porta… escute-me“. Orações para o encontro com o Senhor. Vida e Espiritualidade, Lima 2014).

[1] 9º – Não desejar a mulher do próximo; 10º – Não cobiças as coisas alheias.

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