XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM: “Senhor, ensina-nos a rezar”

2015

Leitura do livro do Gênesis 18,20- 32: Que o meu Senhor não se irrite, se eu falar.”28

« Naqueles dias:

20O Senhor disse a Abraão:

– ‘O clamor contra Sodoma e Gomorra cresceu, e agravou-se muito o seu pecado. 21Vou descer para verificar se as suas obras correspondem ou não ao clamor que chegou até mim’.

22Partindo dali, os homens dirigiram-se a Sodoma, enquanto Abraão ficou na presença do Senhor.

23Então, aproximando-se, disse Abraão:

– ‘Vais realmente exterminar o justo com o ímpio? 24Se houvesse cinquenta justos na cidade, acaso iríeis exterminá-los? Não pouparias o lugar por causa dos cinquenta justos que ali vivem? 25Longe de ti agir assim, fazendo morrer o justo com o ímpio, como se o justo fosse igual ao ímpio. Longe de ti! O juiz de toda a terra não faria justiça?’

26O Senhor respondeu:

– ‘Se eu encontrasse em Sodoma cinquenta justos, pouparia por causa deles a cidade inteira’.

27Abraão prosseguiu dizendo:

– ‘Estou sendo atrevido em falar a meu Senhor, eu que sou pó e cinza. 28Se dos cinquenta justos faltassem cinco, destruirias por causa dos cinco a cidade inteira?’

O Senhor respondeu:

– ‘Não destruiria, se achasse ali quarenta e cinco justos’.

29Insistiu ainda Abraão e disse:

– ‘E se houvesse quarenta?’

Ele respondeu:

– ‘Por causa dos quarenta, não o faria’.

30Abraão tornou a insistir:

– ‘Não se irrite o meu Senhor, se ainda falo. E se houvesse apenas trinta justos?’.

Ele respondeu:

– ‘Também não o faria, se encontrasse trinta’.

31Tornou Abraão a insistir:

– ‘Já que me atrevi a falar a meu Senhor, e se houver vinte justos?’

Ele respondeu:

– ‘Não a iria destruir por causa dos vinte’.

32Abraão disse:

– ‘Que o meu Senhor não se irrite, se eu falar só mais uma vez: e se houvesse apenas dez?’

Ele respondeu:

– ‘Por causa dos dez, não a destruiria’.»

Salmo Responsorial (138/137): “Naquele dia em que gritei, vós me escutastes, ó Senhor!”

1Ó Senhor, de coração eu vos dou graças,
porque ouvistes as palavras dos meus lábios!
Perante os vossos anjos vou cantar-vos
2ae ante o vosso templo vou prostrar-me.

2bEu agradeço vosso amor, vossa verdade,
2cporque fizestes muito mais que prometestes;
3naquele dia em que gritei, vós me escutastes
e aumentastes o vigor da minha alma.

6Altíssimo é o Senhor, mas olha os pobres,
e de longe reconhece os orgulhosos.
7aSe no meio da desgraça eu caminhar,
vós me fazeis tornar à vida novamente;
7bquando os meus perseguidores me atacarem
e com ira investirem contra mim,
estendereis o vosso braço em meu auxílio.

7cE havereis de me salvar com vossa destra.
8Completai em mim a obra começada;
ó Senhor, vossa bondade é para sempre!
Eu vos peço: não deixeis inacabada
esta obra que fizeram vossas mãos!

Leitura da carta de São Paulo aos Colossenses 2,12-14: Deus vos trouxe para a vida, junto com Cristo, e a todos nós perdoou os pecados.

«Irmãos:

12Com Cristo fostes sepultados no batismo; com ele também fostes ressuscitados por meio da fé no poder de Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos. 13Ora, vós estáveis mortos por causa dos vossos pecados, e vossos corpos não tinham recebido a circuncisão, até que Deus vos trouxe para a vida, junto com Cristo, e a todos nós perdoou os pecados. 14Existia contra nós uma conta a ser paga, mas ele a cancelou, apesar das obrigações legais, e a eliminou, pregando-a na cruz.»

 Leitura do Santo Evangelho segundo São Lucas 11, 1-13: Pedi e recebereis.

« 1Jesus estava rezando num certo lugar. Quando terminou, um de seus discípulos pediu-lhe:

– ‘Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos.’

2Jesus respondeu:

– ‘Quando rezardes, dizei: `Pai, santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino. 3Dá-nos a cada dia o pão de que precisamos, 4e perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos os nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação’.’

5E Jesus acrescentou:

– ‘Se um de vós tiver um amigo e for procurá-lo à meia-noite e lhe disser: `Amigo, empresta-me três pães, 6porque um amigo meu chegou de viagem e nada tenho para lhe oferecer’, 7e se o outro responder lá de dentro: ‘Não me incomoda! Já tranquei a porta, e meus filhos e eu já estamos deitados; não me posso levantar para te dar os pães’; 8eu vos declaro: mesmo que o outro não se levante para dá-los porque é seu amigo, vai levantar-se ao menos por causa da impertinência dele e lhe dará quanto for necessário.

9Portanto, eu vos digo: pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto. 10Pois quem pede, recebe; quem procura, encontra; e, para quem bate, se abrirá.

11Será que algum de vós que é pai, se o filho pedir um peixe, lhe dará uma cobra? 12Ou ainda, se pedir um ovo, lhe dará um escorpião? 13Ora, se vós que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem! ‘ »

COMENTÁRIOS

O Senhor Jesus, Filho de Deus e de Santa Maria Virgem, é um homem de ação e oração. O anúncio da Boa Nova, seus sinais e milagres, a obra da Reconciliação realizada em sua Morte e Ressurreição são, acima de tudo, ação, ação que se sustenta na comunhão profunda e no diálogo contínuo com o Pai, ação que é ela mesma uma ato de ininterrupto louvor ao Pai porque é fiel cumprimento de seus amorosos desígnios divinos: «Eu te glorifiquei na terra. Terminei a obra que me deste para fazer» (Jo 17,4). Com efeito, levando a cabo a obra que o Pai lhe encomendou, o Filho glorifica o Pai porque faz de sua ação uma liturgia contínua, uma oração que não se interrompe. O Senhor Jesus vive intensamente o binômio da ação e oração: oração para a vida e apostolado, vida e apostolado feitos oração.

É em meio à intensa atividade que realiza em seu caminho a Jerusalém, atividade que é ela mesma oração, que o Senhor não deixa de procurar os necessários “momentos fortes” de diálogo e encontro íntimo com o Pai. Ele estava «rezando num certo lugar», lemos no Evangelho deste Domingo. Esta é uma das muitas ocasiões nas quais Jesus procura o Pai no silêncio e na solidão da oração. No meio da atividade o Senhor se mostra como um homem de oração (Ver Catecismo da Igreja Católica, 2599-2606), constituindo-se em modelo que «com sua oração atrai à oração» (Catecismo da Igreja Católica, 520), já que o discípulo que contempla seu Mestre em oração experimenta a necessidade de ele mesmo orar, experimenta o desejo de aprender de quem é Mestre. Por isso que quando Jesus terminou de orar, um de seus discípulos disse-lhe: «Senhor, ensina-nos a rezar».

Diante da pergunta, o Senhor não ensina a seus discípulos propriamente “como” orar, não estabelece um método de oração, mas os ensina o que dizer no momento de orar. Assim lhes propõe uma prece muito breve e concreta, cujo conteúdo vai ao essencial: « Quando rezardes, dizei: Pai, santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino. Dá-nos a cada dia o pão de que precisamos, e perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos a todos os nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação».

Nesta oração a primeira palavra que o crente deve dirigir a Deus é a de “Pai”. É verdadeiramente filho, em Jesus Cristo e por Jesus Cristo, quem com Ele foi sepultado no Batismo e quem com Ele também ressuscitou para uma vida nova (2ª. leitura). A reconciliação que o Senhor realizou por sua paixão, morte e ressurreição, é perdão dos pecados, cancelamento da confissão de dívida escrita contra nós». Todo batizado foi vivificado em Cristo e feito filho no Filho: «Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato» (1Jo 3,1). Graças a Jesus Cristo e em comunhão com Ele, o crente é verdadeiramente filho de Deus, e pode-se dirigir a Ele como Pai.

Depois de ensinar a seus discípulos esta prece fundamental, o Senhor continua sua instrução sobre a oração. A perseverança e a confiança serão suas principais características. Com a parábola do amigo importuno ensina quão persistente deve ser a súplica dirigida ao Pai. Também Abraão se mostra obstinadamente insistente ao suplicar a Deus que não destrua as cidades iníquas de Sodoma e Gomorra, em consideração aos poucos justos que ali pudesse haver (1ª. leitura). Jesus, por sua parte, conclui sua parábola dando-lhes a certeza de que serão atendidos por Deus em suas preces: « Pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto. 10Pois quem pede, recebe; quem procura, encontra; e, para quem bate, se abrirá ».

Contudo, o Senhor deixa entrever que se não receberem o que pedirem, é porque estão pedindo algo que não convém. A razão de não receber o que se pede deve ser procurada não em Deus, como se não escutasse, mas no fato de que, como Pai, Ele não dará a seus filhos o que não convém. E às vezes, embora não se compreenda no momento, o mais conveniente é a Cruz à qual o Pai, em seus misteriosos desígnios, convida o discípulo a abraçar-se com firmeza. Nessas circunstâncias, o Filho, por excelência, é também Modelo e Mestre de como se tem que rezar: «Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres.» (Mt 26,39)

LUZES PARA A VIDA CRISTÃ

Ao ver o mestre em oração, o discípulo também experimenta a necessidade dele mesmo rezar. Mas como devemos rezar? Qual é a melhor maneira ou o método seguro para comunicar-se com Deus? E quem melhor do que o próprio Jesus Cristo para nos ensinar a rezar? Assim, diante da súplica dos discípulos que dizem: “ensina-nos nos a orar”, o Senhor lhes propõe uma prece simples e concreta: “O Pai Nosso”

Muitos hoje fazem uma distinção entre “orar” e “rezar”. Definem que “rezar” é apenas repetir uma fórmula, enquanto que “orar” é dialogar espontaneamente com o Senhor. A quem corre o risco de pensar que o diálogo espontâneo com Deus é superior e preferível a “rezar” com alguma fórmula estabelecida, convém recordar que o que Jesus ensinou a seus discípulos é justamente uma fórmula, que milhões de cristãos vêm rezando desde então, fiéis à instrução do Senhor. Como é importante rezar com esta oração que o Senhor mesmo nos deixou como uma preciosíssima herança!

Óbvio que existe o perigo da rotina, que leva a recitar a oração do Pai Nosso feito um papagaio, sem entender o conteúdo de suas palavras e súplicas. Assim terminamos esvaziando-a de seu conteúdo e fazendo dela um puro falatório. Quantos acreditam que rezam porque ao final do dia balbuciam um Pai Nosso apressadamente, antes de deitar-se, como se isso fosse rezar!

Contudo, bastaria rezar bem esta oração a cada dia, dando o verdadeiro peso e sentido a suas palavras e súplicas, para que nossa vida fosse transformada. Para isso é necessário aprofundar no sentido do que rezamos nesta preciosa oração, elaborada pelo próprio Senhor para nos ensinar como orar.

Com a primeira palavra desta oração o Senhor Jesus nos convida a nos dirigir a Deus dizendo “Pai”. Deus é verdadeiramente Pai, um Pai rico em misericórdia e ternura, é meu Pai e verdadeiramente me ama e como tal quer meu máximo bem (ver 1 Jo 3, 1; Lc 15, 11-32).

Mas Deus, a quem o Senhor Jesus me ensina a dirigir-me com confiança filial, não só é meu Pai: é também Pai de Jesus Cristo, meu Pai e teu, de todos os que recebemos a vida nova em Cristo, é “Pai nosso”. Sim, o Senhor nos ensina que seu Pai é também nosso Pai e isso faz a ti e a mim irmãos, verdadeiramente irmãos, unidos por um vínculo mais profundo que o do sangue, o vínculo do Espírito que recebemos no dia de nosso Batismo. E se somos filhos de um mesmo Pai, não podemos consentir divisões entre nós que somos de Cristo, mais ainda, somos responsáveis uns pelos outros, somos responsáveis por trabalhar pela nossa unidade, por vivermos reconciliados no amor do Senhor. Não há fraternidade mais profunda e real que essa: a que se sustenta na dignidade e condição de sermos filhos de um mesmo Pai, que é Deus.

Poderíamos, assim, aprofundar em cada uma das palavras e súplicas que o Senhor quis pôr não só em nossos lábios, mas mais ainda em nossos corações. Isso fica como tarefa para cada um, e nesta tarefa nos ajudará muitíssimo a leitura e meditação do Catecismo da Igreja Católica, números 2779 aos 2856.

Procuremos, além disso, rezar todos os dias o Pai Nosso pausadamente, de manhã, antes de começar nossa jornada, tomando consciência de cada uma das palavras que pronunciamos com nossos lábios e procurando, com a graça de Deus, vivê-las intensamente durante nossa jornada.

PADRES DA IGREJA

«Acima de tudo, o Doutor da paz e Mestre da unidade não quis que fizéssemos uma oração individual e privada, de modo que cada qual rogasse só por si mesmo. Não dizemos: «meu pai, que estais nos céus», nem: «O meu pão dai-me hoje», nem pedimos o perdão das ofensas só para cada um de nós, nem pedimos para cada um em particular que não caiamos na tentação e que nos livre do mal. Nossa oração é pública e comum, e quando oramos o fazemos não somente por um, mas sim por todo o povo, já que todos nós, o povo, somos como um só.» São Cipriano

«O homem novo, nascido de novo e restituído a Deus por sua graça, diz em primeiro lugar: Pai, porque já começou a ser filho. A Palavra veio para o que era seu – diz o Evangelho – e os seus não a receberam. Mas a todos que a receberam, deu o poder de se tornarem filhos de Deus, se acreditarem em seu nome. Por isso, aquele que acreditou em seu nome e chegou a ser filho de Deus deve começar por professar, cheio de gratidão, sua condição de filho de Deus, chamando de Pai ao seu Deus que está nos céus.» São Cipriano

[Dizemos] «Santificado seja o vosso nome, não no sentido de que Deus possa ser santificado por nossas orações, mas no sentido de que pedimos a Deus que seu nome seja santificado em nós. Ademais, por quem poderia Deus ser santificado, se é Ele mesmo quem santifica? Mas como Ele disse: Sede Santos, porque eu sou santo, por isso, pedimos e rogamos que nós, que fomos santificados no Batismo, perseveremos nesta santificação inicial. E pedimos isto a cada dia. Necessitamos, com efeito, desta santificação cotidiana, já que todos os dias delinquimos[1], e por isso precisamos ser purificados mediante esta contínua e renovada santificação.» São Cipriano

«“Venha a nós o vosso reino”. Pedimos que o reino de Deus se realize, no mesmo sentido em que imploramos que seu nome seja santificado em nós. Com efeito, quando é que Deus não reina? Quando começou a ser o que no sempre existiu e jamais deixará de existir? Pedimos, pois, que venha o nosso reino, o que Deus nos prometeu, aquele que Cristo nos alcançou por sua Paixão e seu Sangue. Assim, depois de termos sido escravos neste mundo, seremos reis quando Cristo será soberano, tal como ele mesmo nos prometeu quando disse: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo (Mt 25,34).» São Cipriano

[Dizemos] «Faça-se sua vontade assim na terra como no céu, não no sentido de que Deus faça o que queira, mas sim de que nós sejamos capazes de fazer o que Deus quer. Quem, com efeito, pode impedir que Deus faça o que quer? Mas a nós sim, o diabo pode nos impedir nossa total submissão a Deus em sentimentos e ações; por isso pedimos que se faça em nós a vontade de Deus, e para isso necessitamos da vontade de Deus, quer dizer, de seu amparo e ajuda, já que ninguém pode confiar em suas próprias forças, pois a segurança nos vem da benignidade e misericórdia divinas.» São Cipriano

«Deus nos ensinou a orar não só com palavras, mas também com atos, já que ele orava com frequência, mostrando, com o testemunho de seu exemplo, qual tem que ser nossa conduta neste aspecto; lemos, com efeito: “[Jesus] costumava retirar-se a lugares solitários para orar”[2]; e também: “Subiu à montanha para orar na solidão. E, chegando a noite, estava lá sozinho”.[3]» São Cipriano

CATECISMO DA IGREJA

Sobre a oração do Pai Nosso

2761     “A Oração dominical é realmente o resumo de todo o Evangelho.” “Depois de nos ter legado esta fórmula de oração, o Senhor acrescentou: ‘Pedi e vos será dado’ (Lc 11,9). Cada qual pode, portanto, dirigir ao céu diversas orações conforme as suas necessidades, mas começando sempre pela Oração do Senhor, que permanece a oração fundamental.”

2764     O Sermão da Montanha é doutrina de vida, a Oração do Senhor é oração, mas em ambos o Espírito do Senhor dá forma nova aos nossos desejos, isto é, a estas moções[4] interiores que animam nossa vida. Jesus nos ensina esta vida nova por suas palavras e nos ensina a pedi-la pela oração. Da retidão de nossa oração dependerá a retidão de nossa vida em Cristo.

2765     A tradicional expressão “Oração dominical” [ou seja, “Oração do Senhor”] significa que a oração ao nosso Pai nos foi ensinada e dada pelo Senhor Jesus. Esta oração que nos vem de Jesus é realmente única: ela é “do Senhor”. Com efeito, por um lado, mediante as palavras desta oração, o Filho único nos dá as palavras que o Pai lhe deu; Ele é o Mestre de nossa oração. Por outro lado, como Verbo encarnado, Ele conhece em seu coração de homem as necessidades de seus irmãos e irmãs humanos e no-las revela; é o Modelo de nossa oração.

2766     Jesus, no entanto, não nos deixa uma fórmula a ser repetida maquinalmente. Como vale em relação a toda oração vocal, é pela Palavra de Deus que o Espírito Santo ensina aos filhos de Deus como rezar a seu Pai. Jesus nos dá não só as palavras de nossa oração filial, mas também, ao mesmo tempo, o Espírito pelo qual elas se tornam em nós “espírito e vida” (Jo 6, 63). Mais ainda: a prova e a possibilidade de nossa oração filial consiste no fato de que o Pai “enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Abba, Pai!” (Gl 4,6). Já que nossa oração interpreta nossos desejos diante de Deus, é ainda “aquele que perscruta[5] os corações”, o Pai, quem “sabe qual é o desejo do Espírito; pois é segundo Deus que ele intercede pelos santos” (Rm 8,27). A oração a Nosso Pai insere-se na missão misteriosa do Filho e do Espírito.

2767     A Igreja recebeu e viveu desde as origens este dom indissociável das palavras do Senhor e do Espírito Santo, que a elas dá vida no coração dos crentes. As primeiras comunidades rezam a Oração do Senhor “três vezes ao dia”, em lugar das “Dezoito bênçãos” em uso na piedade judaica.

TEXTOS DA ESPIRITUALIDADE SODALITE

“Pede e te dará; busca e achará; chama e te abrirá. Porque todo aquele que pede, recebe, todo aquele que busca, encontra, e ao que chama se lhe abre.

Reza constantemente. É preciso que você reze sempre e sem desfalecer, que seja perseverante na oração velando nela em ação de graças. Quero que reze em todo lugar elevando ao Céu suas mãos piedosas, sem iras nem discussões. Persevera em suas preces e orações noite e dia. Roga sempre, sem cessar e pede em todas as suas orações por todos: peçam os uns pelos outros e serão curados.

Quando for rezar entra em seu dormitório e depois de fechar a porta reza a meu Pai que está oculto e meu Pai, que vê  secretamente, recompensar-te-á. Não fale muito, pois por seu palavrório excessivo não será escutado. Eu sei o que você necessita antes que me peça e tenho poder para realizar todas as coisas incomparavelmente melhor do que você possa pedir ou pensar.

Não se inquiete por coisa alguma, ao invés, em toda ocasião me apresente todos os seus desejos mediante a oração e a súplica acompanhadas da ação de graças.

Quanto pedir na oração creia que já recebeu e o obterá, pois tudo o que você pedir em meu nome eu o farei; e se pedir algo segundo minha vontade, escutarei você. Se você permanecer em mim e minhas palavras permanecem em você, peça o que quiser e o conseguirá. Eu dou generosamente a todo aquele que pedir com fé e sem vacilar, pois meus olhos estão abertos a suas súplicas. A oração fervorosa do justo tem muito poder. Que pai, quando seu filho lhe pede um peixe, lhe dá uma cobra? Ou, se lhe pede um ovo, lhe dá um escorpião? E se vocês sendo maus sabem dar coisas boas a seus filhos, meu Pai não lhes dará o Espírito Santo se O pedirem a mim?

Se dois de vocês se juntam sobre a terra para pedir algo, seja o que for, irão consegui-lo de meu Pai que está nos céus.

Se você não receber é porque pede mal.

Peça-me que ensine você a rezar e lhe ensinarei”.

 (P. Jaime Baertl, Reza sempre em “Estou à porta… Escuta-me“. Orações para o encontro com o Senhor. Vida e Espiritualidade, Lima 2014).

Notas

[1] Delinquir – cometer delitos.

[2] (Lc 5,16)

[3]  (Mt 14,23)

[4] Moções – impulsos que causam o movimento.

[5] Perscrutar – investigar minuciosamente, penetrar; sondar atentamente.

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