XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM: “Ai daquele que escandalizar um destes pequeninos que crêem!”

4514

I. A PALAVRA DE DEUS 

Num 11, 25-29: “Tens ciúmes por mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta.

Naqueles dias: 25O Senhor desceu na nuvem e falou a Moisés. Retirou um pouco do espírito que Moisés possuía e o deu aos setenta anciãos. Assim que repousou sobre eles o espírito, puseram-se a profetizar, mas não continuaram.

26Dois homens, porém, tinham ficado no acampamento. Um chamava-se Eldad e o outro Medad. O espírito repousou igualmente sobre os dois, que estavam na lista mas não tinham ido à Tenda, e eles profetizavam no acampamento.

27Um jovem correu a avisar Moisés que Eldad e Medad estavam profetizando no acampamento. 28Josué, filho de Nun, ajudante de Moisés desde a juventude, disse: ‘Moisés, meu Senhor, manda que eles se calem!’ 29Moisés respondeu: ‘Tens ciúmes por mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta, e que o Senhor lhe concedesse o seu espírito!’

Sal 18, 8.10.12-14: “A lei do Senhor Deus é perfeita, alegria ao coração”

8A lei do Senhor Deus é perfeita,
conforto para a alma!
O testemunho do Senhor é fiel,
sabedoria dos humildes.

10É puro o temor do Senhor,
imutável para sempre.
Os julgamentos do Senhor são corretos
e justos igualmente.

12E vosso servo, instruído por elas,
se empenha em guardá-las.
13Mas quem pode perceber suas faltas?
Perdoai as que não vejo!

14E preservai o vosso servo do orgulho:
não domine sobre mim!
E assim puro, eu serei preservado
dos delitos mais perversos.

Tg 5, 1-6: “Vossa riqueza está apodrecendo.”

1E agora, ricos, chorai e gemei,por causa das desgraças que estão para cair sobre vós.2Vossa riqueza está apodrecendo, e vossas roupas estão carcomidas pelas traças.3Vosso ouro e vossa prata estão enferrujados, e a ferrugem deles vai servir de testemunho contra vós e devorar vossas carnes, como fogo!

Amontoastes tesouros nos últimos dias.4Vede:o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, que vós deixastes de pagar, está gritando, e o clamor dos trabalhadores chegou aos ouvidos do Senhor todo-poderoso. 5Vós vivestes luxuosamente na terra, entregues à boa vida, cevando os vossos corações para o dia da matança. 6Condenastes o justo e o assassinastes;ele não resiste a vós.

Mc 9,38-43.45.47-48: “Quem não é contra nós é a nosso favor Se tua mão te leva a pecar, corta-a!”

Naquele tempo,38João disse a Jesus:

–’Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue’.

39Jesus disse:

– ‘Não o proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim. 40Quem não é contra nós é a nosso favor. 41Em verdade eu vos digo: quem vos der a beber um copo de água, porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa. 42E, se alguém escandalizar um destes pequeninos que crêem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço.

43Se tua mão te leva a pecar, corta-a! É melhor entrar na Vida sem uma das mãos, do que, tendo as duas, ir para o inferno, para o fogo que nunca se apaga.

45Se teu pé te leva a pecar, corta-o! É melhor entrar na Vida sem um dos pés, do que, tendo os dois, ser jogado no inferno.

47Se teu olho te leva a pecar, arranca-o! É melhor entrar no Reino de Deus com um olho só, do que, tendo os dois, ser jogado no inferno, 48‘onde o verme deles não morre, e o fogo não se apaga”.

II. COMENTÁRIOS

Deus fala com seu servo Moisés (1ª. leitura) para que transmita ao povo suas palavras. Em certa ocasião reúne setenta anciões ao redor da Tenda. Quando também eles recebem o espírito de Deus começam profetizar. Outros dois anciões, não presentes naquele lugar, também passam a profetizar no povo. Um jovem escandalizado corre até Moisés para lhe pedir que os proíba profetizar. Mas ele responde: «Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta, e que o Senhor lhe concedesse o seu espírito!»

Uma resposta semelhante é a que o Senhor dá a João, que quer impedir que um homem expulse demônios em nome de Cristo porque «não é dos nossos». O Senhor responde: «Não o proibais, porque… quem não é contra nós é a nosso favor». Não é isso que deve escandalizar os discípulos, não é por isso que se tem que impedir que fale ou realize milagres quem prega em nome do Senhor, mesmo que não pertença ao grupo dos Apóstolos.

É por outras coisas que se deve escandalizar, são outras coisas que se deve mudar ou impedir, por exemplo, a injustiça cometida por quem se enriquece explorando seus semelhantes. Na segunda leitura o Apóstolo Tiago se dirige em termos muito enérgicos àqueles ricos que tendo endurecido o coração frente a seus semelhantes amealharam uma fortuna “podre”, acumulada na base de injustiças. A estes acusa de viver dissolutamente, entregando-se aos prazeres. Passam bem nesta vida, mas seu destino será terrível. As desgraças que cairão sobre eles deveriam espantá-los, deveriam fazê-los chorar e gemer. Um comportamento como o deles sim é absolutamente escandaloso.

No Evangelho o Senhor adverte com dureza aqueles que escandalizam «a um destes pequeninos que crêem». Afirma que seria melhor «que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço». A afirmação pode soar exagerada ou excessiva, mas o uso desta hipérbole tem a intenção de fazer com que seus ouvintes tomem consciência da gravidade enorme que o escândalo tem aos olhos de Deus.

O vocábulo escândalo vem da palavra grega skandalon, que denomina o gatilho móvel de uma armadilha ou a própria armadilha. Por extensão se aplica a qualquer obstáculo situado no caminho e que é causa de tropeço e queda para o caminhante. O Senhor aplica o termo escândalo em seu sentido moral: escandaliza o próximo quem com seu mau exemplo, sua ação pecaminosa ou seus conselhos ou opiniões imorais leva outra pessoa ao engano ou ao pecado, afastando-a do caminho do bem que conduz à vida.

Cada um pode converter-se em causa de escândalo para os outros, mas também pode ser causa de escândalo para si mesmo na medida em que se serve de seus membros para pecar, ou fica em situações de risco que são ocasião de pecado, ou admite certas ‘amizades’ ou relações que o arrastam para o mal. Contra este tipo de escândalo o Senhor recomenda a radicalidade: apartar-se ou arrancar pela raiz, cortar tudo aquilo que, sem ser mau em si mesmo, constitui causa de pecado para alguém: «Se tua mão te levar a pecar, corta-a… se teu pé te leva a pecar, corta-o… se teu olho te faz pecar, arranca-o. Evidentemente não devemos entender estas expressões em sentido literal. O Senhor novamente lança mão da hipérbole para assinalar a atitude interior de radicalidade e firmeza que o discípulo deve ter para separar de sua vida tudo aquilo ou aquelas pessoas que nos levam a pecar, mesmo quando implicar um sacrifício doloroso.

Esta radicalidade é sustentada pelo Senhor com um argumento contundente: «É melhor entrar no Reino de Deus com um olho só, do que, tendo os dois, ser jogado no inferno». O Senhor fala da existência do inferno, e embora Deus não o queira para ninguém, é o destino possível para quem se obstina em rechaçar a Deus para aferrar-se ao pecado. Quem quer ganhar a Vida eterna, deve despojar-se de todo lastro ou escravidão de pecado.

III. LUZES PARA A VIDA CRISTÃ

Alguma vez já nos questionamos sobre quantas pessoas escandalizamos com nossas condutas pecaminosas, com nossas ações cotidianas que desdizem a nossa condição de batizados, de cristãos, de católicos? Acaso por nossa causa, por nossas incoerências, muitos não acabam afastando-se da Igreja? Não me afastei, acaso, alguma vez, eu mesmo da Igreja pelos escândalos produzidos por algum mau sacerdote, ou pela incoerência que vejo entre os católicos? Quantos escutamos dizer: “não vou à Igreja porque não me junto com hipócritas”? Quantos desprezam a fé ao ver tantos “beatos” e “carolas” que se proclamam muito crentes, que vão à Missa os Domingos, batem no peito, mas ao sair da Missa ofendem e maltratam os outros, fomentam rixas, ódios, divisões, embebedam-se, cometem injustiças, fraudes, adultérios, fornicações, assassinatos, roubos, calúnias e tantas outras maldades? A quantos escutamos justificar seu lugar retirado da Igreja e da fé dizendo que “creio em Cristo mas não na Igreja”? O certo é que ao afastar-se da Igreja, ao desconfiar dela pela conduta escandalosa de algum ou alguns de seus membros, terminam afastando-se d o próprio Deus e de seu enviado Jesus Cristo (ver Rom 2, 18-24).

É por nossa falta de compromisso com o Senhor, por nossas incoerências entre o que dizemos acreditar e o que fazemos, que Cristo é rechaçado, que a Igreja é desprezada. Devemos tomar consciência de que o pecado que eu cometo, grande ou “pequeno”, mesmo que seja escondido, rebaixa todos os membros da Igreja, e quando é público, converte-se em “pedra de tropeço” para quem nos vê ou escuta. Com meu mau exemplo ou maus ensinamentos induzo os mais fracos a cometer o mal. Com meu pecado, com minhas incoerências, com meu mau testemunho, afasto as pessoas de Deus em vez de aproximá-las dEle.

Diante da responsabilidade enorme que cada um tem frente aos “pequeninos” ninguém pode repetir as palavras de Caim: «Sou, porventura, o guarda do meu irmão?» (Gen 4, 9). Nem tampouco: “Se outro se escandaliza (justamente) com o que eu faço, não é problema meu.” Não! Somos responsáveis pela edificação de nossos irmãos humanos. É nossa obrigação moral ser bom exemplo para o próximo. Os “pequenos”, os frágeis e débeis na fé, devem poder encontrar em nós um referencial, pessoas cristãs de verdade, pessoas exemplares que por sua conduta irrepreensível e uma vida de fé coerente os aproximem do Senhor Jesus e de sua Igreja.

Finalmente, não esqueçamos que o primeiro “próximo”, o mais “próximo” a mim, sou eu mesmo. Portanto, o primeiro a quem devo evitar escandalizar é a mim mesmo. Nesse sentido, o Senhor me convida a apartar radicalmente de minha vida tudo aquilo que é para mim causa de tropeço, tudo aquilo que me leva a pecar, pois «quem peca, prejudica-se a si mesmo» (Eclo 19, 4).

IV. PADRES DA IGREJA

São Pacômio: «Prometemos a nós mesmos ser discípulos de Cristo; mortifiquemo-nos, porque a mortificação maltrata a impureza. Esta é a hora da luta. Não nos retiremos, pelo temor de acabar escravos do pecado. Fomos constituídos luz do mundo; que ninguém se escandalize por nossa causa».

São Beda: «Com razão se chama pequeno ao que pode ser escandalizado, porque o que é grande embora tenha que padecer, não abandonará sua fé, enquanto que o pequeno e pobre de espírito procura ocasiões de escândalo. Portanto devemos nos ocupar principalmente dos que são pequenos na fé, para que por nossa causa não se ofendam e se separem da fé, perdendo a salvação».

São Gregório Magno: «Temos que notar, porém, que em nossas boas obras às vezes devemos ter em conta o escândalo do próximo, embora às vezes não devamos tampouco deter-nos nisto, porque devemos evitar o escândalo quando podemos fazê-lo sem pecar, mas quando o escândalo nasce da verdade, é mais conveniente permiti-lo do que abandonar a esta».

São Beda: «Depois que o Senhor nos ensina que não devemos escandalizar os que acreditam nEle, adverte-nos com quanto cuidado devemos evitar os que nos escandalizam, isto é, que nos levam com sua palavra e seu exemplo à ruína do pecado».

São João Crisóstomo: «Não fala de nossos membros mas dos amigos íntimos, daqueles de quem nos servimos como dos membros, não havendo nada tão prejudicial como uma má companhia».

São Beda: «Chama nossa mão ao amigo necessário, de quem nos valemos diariamente. Se este quiser danificar nosso espírito, deveremos excluí-lo de nossa companhia, porque se queremos ter parte nesta vida com um ser perdido, junto com ele pereceremos na outra».

V. CATECISMO DA IGREJA

«Quem escandalizar a um destes pequeninos…»

2284. O escândalo é a atitude ou comportamento que leva outra pessoa a fazer o mal. O escandaloso transforma-se em tentador do seu próximo; atenta contra a virtude e a retidão, podendo arrastar o irmão para a morte espiritual. O escândalo constitui uma falta grave se, por ação ou omissão, levar deliberadamente outra pessoa a cometer uma falta grave.

2285. O escândalo reveste-se de uma gravidade particular conforme a autoridade dos que o causam ou a fraqueza dos que dele são vítimas. Ele inspirou esta maldição de nosso Senhor: «Mas se alguém escandalizar um destes pequeninos que crêem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço». (Mt 18, 6) (ver 1 Cor 8, 10-13). O escândalo é grave quando é causado por aqueles que, por natureza ou em virtude da função que exercem, têm a obrigação de ensinar e de educar os outros. Jesus censura-o nos escribas e fariseus, comparando-os a lobos disfarçados de cordeiros (ver Mt 7, 15).

2286. O escândalo pode ser provocado pela lei ou pelas instituições, pela moda ou pela opinião.

É assim que se tornam culpados de escândalo os que estabelecem leis ou estruturas sociais conducentes à degradação dos costumes e à corrupção da vida religiosa, ou a «condições sociais que, voluntária ou involuntariamente, tornam difícil e praticamente impossível uma conduta cristã conforme aos mandamentos» (S.S. Pio XII). O mesmo se diga dos chefes de empresa que tomam medidas incitando à fraude, dos professores que «exasperam» os seus alunos (ver Ef 6, 4; Col 3, 21), ou daqueles que, manipulando a opinião pública, desviam-na dos valores morais.

2287. Aquele que usa dos poderes de que dispõe, em condições que induzem a agir mal, torna-se culpado de escândalo e responsável pelo mal que, direta ou indiretamente, favorece. «É inevitável que haja escândalos, mas ai daquele que os causa» (Lc 17, 1).

2326.O escândalo constitui uma falta grave quando, por ação ou omissão, leva deliberadamente outrem a pecar gravemente.

1789. A caridade passa sempre pelo respeito do próximo e da sua consciência: «Ao pecardes assim contra os irmãos, ao ferir-lhes a consciência é contra Cristo que pecais» (1 Cor8, 12). «O que é bom é não […] [fazer] nada em que o teu irmão possa tropeçar, cair ou fraquejar» (Rm14, 21).

VI. TEXTOS DA ESPIRITUALIDADE SODÁLITE

Do mesmo modo, a consciência da dignidade de toda pessoa nos leva a ser reverentes com nosso próximo, como nos assinalou o Senhor Jesus: «Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes»[1]. Assim, por exemplo, a reverência nos ajuda a nos relacionarmos melhor com quem nos rodeia, a tratá-los sempre segundo sua dignidade de filhos de Deus. Leva-nos, também, a estar atentos aos detalhes que são importantes, que demonstram um interesse e preocupação real pelo bem do outro e por suas necessidades. (Caminho para Deus # 242)

Como cristãos estamos chamados à santidade. Este caminho é um apaixonante desafio que não está isento de dificuldades, mas na graça de Deus nos guia e nos sustenta. Entretanto, para que a graça seja eficaz em nossas vidas é necessária nossa cooperação. Não basta dizer “Senhor, Senhor” (Mt 7, 21). Por isso Santo Agostinho dizia: “Deus, que te criou sem teu consentimento não te salvará sem teu consentimento”. Como consequência deste chamado Ele nos exige a autenticidade, dar testemunho permanente da Reconciliação trazida pelo Senhor Jesus. De nossa coerência depende a fé de muitos irmãos que esperam uma resposta às inquietações mais profundas de sua mesmidade[2]. Recordemos sempre que há todo um mundo que temos que transformar desde seus alicerces, de selvagem a humano e de humano a divino. A grandeza de nossa missão torna indispensável que não traiamos a fé que proclamamos. (Caminho para Deus #31)

Hoje, como há mais de dois mil anos, as palavras do Senhor são claras e exigentes. Hoje como antes o Senhor pede de nós verdadeira radicalidade e compromisso. Hoje, como há más de dois mil anos o mesmo Senhor Jesus nos interpela por nossa opção.

Não existe diferença entre a generosidade e a opção dos primeiros cristãos e a nossa. Não existe diferença entre a urgência de sua missão e a que nos toca viver hoje. Em nossos dias também vemos com tristeza como muitos discípulos abandonam e voltam atrás escandalizados pela radicalidade que implica o seguimento autêntico do Senhor. Outros provavelmente não partem externamente, mas vivem como se já não estivessem com Cristo, optaram por outras alternativas silenciosamente em seu coração e, no fundo, optaram pela tibieza[3] e pela mediocridade. (Caminho para Deus #173)

Notas

[1] Mt 25,40.

[2] Mesmidade. Versão do neologismo espanhol “mismidad”. Termo que designa a realidade constitutiva mais profunda do ser humano. É o âmago da identidade ─ única e não repetível ─ de cada ser humano, realidade objetiva que não muda e subsiste para sempre. Constitui o centro do próprio ser e o núcleo de sua unidade pessoal subsistente, que permanece ao longo do devir histórico da pessoa, permitindo-lhe seguir sendo ela mesma e referir-se a sua identidade própria além das mudanças. Dela brotam os dinamismos fundamentais de permanecer e desdobrar-se, que orientam e impulsionam a própria existência à sua plenitude.

[3] Tibieza – falta de ardor, de entusiasmo; frieza.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here