Caminho para Deus 136 – Audácia apostólica

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«Depois do grande Papa João Paulo II, os senhores cardeais elegeram a mim, um simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor (…) Sigamos adiante, o Senhor nos ajudará, e Maria, sua Santíssima Mãe, está do nosso lado »[1].

Já faz dois meses que vivemos, junto com toda a Igreja, um tempo realmente intenso. A partida do Papa João Paulo II à casa do Pai nos deixou uma sensação de vazio e orfandade. Mas, os dias que se sucederam, foram para a Igreja e para o mundo inteiro um tempo extraordinário de graça. Uma impressionante manifestação de fé, de amor e de solidariedade espiritual se viveu em Roma e no mundo inteiro. Os funerais de João Paulo II também foram «uma experiência verdadeiramente extraordinária na qual se sentiu de certa forma o poder de Deus que, através da sua Igreja, deseja formar, de todos os povos, uma grande família, mediante a força unificadora da Verdade e do Amor »[2], nas palavras de Bento XVI, “deixa uma Igreja mais valente, mais livre, mais jovem” [3]. Nos toca assumir esse imenso legado que ele nos deixou e colher seus frutos, acompanhando o nosso novo Pastor na empreitada de remar mar adentro com máxima audácia apostólica. Assim, com Pedro e sob Pedro, vamos adiante evangelizar o mundo inteiro!

Anunciar o Evangelho com “parrésia”

Ao falar de audácia apostólica vem à nossa mente uma palavra usada no Novo Testamento para definir o modo como os primeiros apóstolos e discípulos de Cristo anunciavam o Evangelho: «Fortalecidos por tal esperança, temos plena confiança (parrésia)»[4].

O que quer dizer Parrésia? Esta palavra vem do grego, e se compõe das palavras ps, que significa “tudo”, e rhesis, que significa “fala”. No Novo Testamento se usa, fundamentalmente, para designar a liberdade ao falar. Expressa especificamente a segurança, coragem e audácia para falar de Jesus Cristo sem medo.

O medo e a desconfiança de Deus, inimigos da audácia apostólica

O medo é um grande obstáculo para o anúncio. Tem diversos rostos: medo de não ser aceito, medo de ser objeto de brincadeira, medo do fracasso, medo da perseguição em suas múltiplas formas, etc. Péssimo conselheiro para o apostolado é o medo: leva-nos a calar quando devemos falar, a ocultar-nos quando devemos dar testemunho[5], retroceder quando deveríamos avançar. O medo se reveste de falsa prudência quando devemos arriscar e nos lançar, com audácia, a conquistar novos horizontes apostólicos. O problema não estaria em sentir temor, mas sim, em nos deixar levar por ele.

Junto ao medo está a falta de confiança em Deus, que se reveste de desculpas “válidas” para evitar a missão: “eu não posso”, “não estou preparado”, “sou indigno”, “sou ainda muito incoerente”, etc. Assim justificamos, às vezes, nosso silêncio e no fundo a falta de confiança em Deus para nos arriscarmos, para nos lançarmos ao apostolado e assumirmos os desafios que dia a dia são-nos apresentados. Mas nenhuma dessas desculpas é válida, desde que Deus mesmo respondeu a todas elas, nos assegurando sua Presença e assistência divina[6], e, mais ainda, quando consideramos que é o “Deus Amor” quem nos chama e nos envia à missão apostólica.

Como os primeiros apóstolos

Os primeiros apóstolos e discípulos de Cristo experimentaram uma mudança radical em suas vidas quando o Espírito Santo baixou sobre eles, no dia de Pentecostes[7]: Adquiriram o valor e a audácia para o anúncio. Dali em diante, nem os açoites, nem os cárceres, nem as ameaças, nem o rechaço de alguns, poderiam impedi-los de anunciar o Evangelho. O ardor e a urgência que experimentavam os levou a empreender as mais audazes aventuras e assumir riscos, contanto que Cristo fosse anunciado e conhecido por todos. Não poucos deram testemunho do Senhor com sua própria vida.

Estarmos dispostos a dar a vida por Ele e pelo Evangelho, lutar intensamente por vencer os obstáculos, pôr todos os meios ao nosso alcance, nosso engenho e criatividade, pessoal e comunitariamente, para que Cristo e seu Evangelho sejam acessíveis a todos os homens e culturas de hoje; não é essa a audácia apostólica que o Senhor também nos pede para vivermos hoje?

Parrésia, um dom do Espírito de Cristo…

Somos chamados a acender o mundo inteiro com o Fogo do Amor que vem de Deus[8]. Mas, como acender o mundo inteiro, se o Fogo do Amor não arde no nosso próprio coração e se traduz em um ardor apostólico, uma ânsia evangelizadora? A audácia apostólica não é somente questão de decisão, de nos animarmos a sermos valentes, mas sim, acima de tudo, é o fruto de um dom derramado no próprio coração. Por isso, antes de tudo, é necessário suplicar insistentemente a Deus que derrame sobre nós o dom de seu Espírito, que nos inflame interiormente e que nos dê línguas, como de fogo, para podermos acender outros corações com o Fogo de seu Amor!

… que exige uma vida espiritual intensa

Pois bem, o Espírito Santo nos foi dado[9], também a nós, no dia de nosso Batismo e Confirmação, e este dom de Deus exige hoje, de nossa parte, uma resposta comprometida: uma intensa vida espiritual «quer dizer, [uma] vida animada e guiada pelo Espírito em ordem à santidade e à perfeição da caridade »[10].

A autêntica audácia apostólica procede de uma profunda e intensa vida espiritual, da presença do Senhor no próprio coração: «A presença do Espírito Santo em nós, de fato, longe de nos impelir para uma «evasão» alienante, penetra e mobiliza todo o nosso ser: inteligência, vontade, afetividade, corporeidade, para que o nosso «homem novo»(Ef 4, 24) impregne o espaço e o tempo da novidade evangélica»[11].

Não será a primeira audácia apostólica a de nos deixar evangelizar nós mesmos pelo Senhor, a de acolher sem medo ao Senhor Jesus em nossos próprios corações? Esse é o primeiro medo que temos que vencer!

Uma autêntica vida espiritual leva ao anúncio

Sendo certo que o apostolado tem que se alimentar de uma vida espiritual intensa, também o é que esta, se for autêntica, leva necessariamente ao anúncio e não fecha a pessoa sobre si mesma.

Quem abre, de par em par, sem medo, as portas de seu coração a Cristo, encontra-se com Ele; e não se entende como pode não anunciar a Cristo quem o leva em si, quem se encontrou com Ele. Quem leva o Senhor dentro de si simplesmente precisa anunciá-lo. Essa Presença divina no próprio coração e o ardor por ela gerado, impulsionam o crente a buscar maneiras de anunciá-lo aos demais. Quem leva Cristo em seu interior e se abre à força de seu Espírito não se detém diante dos obstáculos, ao contrário, procura a maneira de superá-los, para que o Evangelho toque e transforme o coração de muitos. Não se detém pelo cansaço e pela fadiga, nem tem “horários cômodos”, mas procura anunciá-lo a tempo e fora de tempo, dia e noite, com a vida, assim como com a morte. Toda a sua vida se faz anúncio. A presença do Senhor no coração do apóstolo, ou se torna audaciosamente irradiante, ou não é uma presença maduramente acolhida.

Hora da audácia!

Hoje, como ontem, o Senhor necessita de apóstolos audazes, homens e mulheres que, conscientes de sua insuficiência, saibam abrir-se à força e ao ardor do Espírito que, também hoje, nos lança à grande tarefa da Nova Evangelização. Homens e mulheres que emprestemos, superando os temores, nossa mente, nosso coração e nossos lábios ao Senhor, para transmiti-lo a tantos corações que, no mundo, morrem por falta de Luz e de Calor.

É todo um mundo que temos que transformar e acender no amor de Cristo. Só os Santos modificarão o mundo! Só homens e mulheres audazes, portadores de Cristo, inundados pela força e vitalidade de seu Espírito, poderão cumprir com este dever. « É precisamente assim: nós existimos para mostrar Deus aos homens. E só onde se vê Deus, começa verdadeiramente a vida. Só quando encontramos em Cristo o Deus vivo, conhecemos o que é a vida»[12].

Citações para a Oração

  • O Senhor nos manda anunciar seu Evangelho ao mundo inteiro: Mt 28,18-20; nos convida a falar sem medo: At 18,9-11; a dar testemunho de nossa fé e esperança com parrésia 2 Cor 3, 12.
  • Quem cede ao medo, oculta sua fé e sua condição de cristão: Jo 7,13; 20,19; fica calado: Mc 16,8; trai o Senhor e renega sua condição de discípulo: Mc 14,50; 26,74.
  • Os apóstolos anunciavam o Evangelho com coragem: At 4,13; 9,27; 13,46; 14,3; 18,26; 19,8; A parrésia é coragem e audácia no falar: At 5,29; 9, 28; 28,31; implica confiança em Deus e valor para anunciar o Evangelho apesar das provações: 1Ts 2,2.
  • A parrésia procede do Espírito: At 2,1ss; tem que suplicar o Dom: At 4,29-31; Ef 6,18-19.
  • O ardor e a urgência por anunciar ao Evangelho do Senhor: 1Cor 9,16; leva a sermos criativos e audazes para que o Evangelho chegue a todos: 1Cor 9,20-22; a proclamar a palavra a tempo e a destempo: 2Tm 4,2; a não se deixar vencer pelos obstáculos: 2Cor 11,23-28.
Interiorizando

No texto descobrimos nosso chamado a anunciar o Senhor Jesus ao mundo, com “Parrésia”.

  • Devemos ser sempre audazes em nosso apostolado e lançar-nos ao anúncio da Boa Nova.
  • Sinto-me, realmente, chamado a este anúncio audaz, do Senhor Jesus, ao mundo?
  • O que posso fazer para que meu apostolado seja ainda mais audaz?

Algumas vezes, experimentamos certo medo e insegurança no momento de anunciar o Senhor Jesus aos outros.

  • Quais costumam ser meus principais medos ao fazer apostolado? Costumo me deixar levar por estes medos?
  • Que coisas concretas posso fazer para, progressivamente, vencer estes medos?

O apóstolo São Paulo, exemplo de audácia apostólica, disse-nos que “se Deus está conosco, quem estará contra nós?” (Rm 8,31).

  • Sou consciente de que o Senhor sempre me oferece a graça e a ajuda necessária para o meu apostolado?
  • Confio realmente em Sua ajuda?  O que posso fazer para confiar ainda mais?

“A Igreja nasceu com a finalidade de propagar o Reino de Cristo por toda a terra para a glória de Deus Pai e, dessa forma, fazer partícipes a todos os homens da redenção salvadora, e, por meio desses homens ordenar realmente todo mundo para Cristo” (Apostolicam actuositatem, 2).

  • Percebo a importância do apostolado que eu realizo, para toda a Igreja?
  • O que estou fazendo para ajudar para que cada vez mais pessoas se encontrem com o Senhor Jesus?

Escreva uma oração ao Espírito Santo para que Ele lhe conceda a força necessária para anunciar a Boa Nova do Senhor Jesus no mundo com valentia e audácia:

A autêntica audácia apostólica procede de uma profunda e intensa vida espiritual, da presença do Senhor no próprio coração.

  • Sou consciente da importância da minha vida espiritual para que meu apostolado seja cada vez mais audaz?
  • O que vou fazer para que minha vida espiritual cresça ainda mais?

O Papa Bento XVI nos disse: “Não tenham medo de Cristo! Ele não tira nada, e dá tudo. Quem se entrega a Ele, recebe o cento por um. Sim, abram, abram de par em par as portas a Cristo, e encontrarão a verdadeira vida”.

  • O que significam estas palavras do Santo Padre para a minha própria vida?
  • Que relação tem esta exortação do Papa com o chamado a ser audaz no apostolado?

Santa Maria anunciou, com audácia, a Boa Nova do Senhor Jesus, a todo o momento. Peçamos à nossa Mãe que interceda por nosso apostolado e para que este cresça em audácia.

Pedindo um favor

Peço-te perdão
pois me aproximo,
Ó! Maria,
interessado em pedir-te.
Sei que teu Filho amado
nada te nega,
e, com essa confiança,
sabendo de tua imensa bondade,
é que me atrevo a pedir-te
que intercedas
para obter-me a graça
que agora te peço: crescer na audácia apostólica.
Amém.

Perguntas para o diálogo

  1. Que importância tem realizar um apostolado audaz? Estou fazendo um apostolado assim? Como meu apostolado pode ser cada vez mais audaz?
  2. Faça uma lista dos seus principais medos, que não lhe permitem fazer um apostolado mais audaz. Como vou vencer a estes medos?
  3. Que importância tem o Espírito Santo em meu apostolado?
  4. O que é a “Parrésia”? Estou vivendo-a no apostolado?
  5. Que relação tem uma vida espiritual intensa com a audácia apostólica?
  6. Sou consciente da urgência do apostolado? O que vou fazer?

[1] S.S. Bento XVI, Mensagem antes da bênção “urbi et orbi” logo depois de sua eleição, 19/4/05.

[2] S.S. Bento XVI, Mensagem pronunciada ao final da missa concelebrada com os cardeais, 20/4/2005, 1.

[3] Ali mesmo, 3.

[4] 2Cor 3,12.

[5] Ver Mt 5,15-16.

[6] Ver Ex 4, 10-12; Is 6,5-8; Jr 1,7-8; Mt 10,19-20.

[7] Ver At 2,1ss; Lc 24,49.

[8] Ver Lc 12,49.

[9] Ver Rm 5,5.

[10] S.S. João Paulo II, Pastores dabo vobis, 19.

[11] S.S. João Paulo II, Catequese do dia 21/10/98, 4.

[12] S.S. Bento XVI, Homilia na Missa da Inauguração de seu Ministério Petrino como Supremo Pontífice, 24/04/2005.

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