Caminho para Deus 157 – O apostolado, caminho de santidade

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A Igreja, fiel à palavra do Senhor Jesus, não deixa de ensinar que a vocação cristã, por sua própria natureza, é também vocação ao apostolado.[1]

Esta afirmação nos apresenta duas considerações.  A primeira é a de que o apostolado não é algo acidental à vida cristã, mas faz parte de sua própria natureza.  A segunda: se o apostolado é uma vocação, quer dizer, um chamado, significa por um lado que Deus me pede isso e, se o faz, é porque conta comigo e, se conta comigo, é porque tenho capacidade de responder, pois Deus nunca me pediria algo que eu não pudesse fazer.  No momento vamo-nos deter na primeira afirmação para retornar mais adiante à segunda.

Ser cristão: ser santo e apóstolo

Dizíamos que ser apóstolo equivale a ser cristão.  O crente que não se vê a si mesmo como apóstolo mutila sua própria identidade como discípulo de Jesus.  Fazer apostolado não pode ser algo acessório do qual eu possa prescindir sem que isso implique romper minha vida cristã, afetar sua própria essência.  São Paulo expressa essa verdade fundamental de maneira apaixonada e eloqüente quando diz «ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!»[2].

A partir desta consideração não é difícil deduzir a íntima relação entre santidade e apostoladoAmbas, de certo modo, constituem a missão da Igreja no mundo:

« A missão da Igreja tem como fim a salvação dos homens, a alcançar pela fé em Cristo e pela sua graça. Por este motivo, o apostolado da Igreja e de todos os seus membros ordena-se, antes de mais, a manifestar ao mundo, por palavras e obras, a mensagem de Cristo, e a comunicar a sua graça ».[3]

Todo cristão está chamado a fazer apostolado e, ao fazê-lo, contribui com Deus na santificação de si mesmo e na santificação de outros.  O apostolado é meio e ao mesmo tempo fim de minha santificação.  Com efeito, é meio enquanto o próprio fato de fazer apostolado me santifica.  É fim enquanto faz parte da própria natureza da vida cristã e esta é plena união com Deus mediante a vida em Cristo.

Sou apóstolo por vocação.

Voltemos agora para o segundo enunciado que expusemos no início: ser apóstolo é uma vocação, um chamado de Deus a todos os cristãos.  Isto pode parecer contraditório à primeira vista.  Com efeito, para ser apóstolo não se requer uma psicologia, uma formação, umas características pessoais mínimas? Acaso não se necessita do tempo, da disponibilidade que as ocupações inadiáveis da vida moderna me negam?

É evidente que nem todos estamos chamados a fazer apostolado da mesma maneira.  O apostolado que pode realizar a religiosa contemplativa, o pároco rural, o estudante universitário ou a dona-de-casa que além disso trabalha meio expediente não é o mesmo.  Entretanto, as características pessoais e as circunstâncias da própria vida não anulam o chamado, mas precisamente o qualificam: se o apostolado é uma vocação, Deus me pede que a realize precisamente a partir de minha identidade, partindo de quem eu sou, assim como das circunstâncias concretas de minha própria vida.

Isto nos leva a nos questionarmos a respeito da própria natureza do apostolado, sua raiz profunda, interior; em uma palavra, qual é a “alma” do apostolado.

A essência do apostolado não pode ser senão a mesma essência da vida cristã, isto é o Amor de Deus manifestado em Jesus CristoO cristão está chamado a viver o Amor, e o Amor não é uma teoria nem um programa, é Deus mesmo —Deus é Amor— que se faz homem e nos mostra nossa própria vocação.  Cristo como o princípio de minha vida interior, eis aí, o Caminho, a Verdade e a Vida[4].

«Tende em vós os mesmos sentimentos de Cristo»[5] nos exorta São Paulo.  Os sentimentos de Cristo são a entrega no Amor ao Pai e aos homens.  Não é essa a essência do apostolado? Paulo VI define o apostolado como «amor que transborda, que explode, que se propaga em testemunho e ação»[6].  Nasce do encontro pessoal com o Senhor Jesus e se alimenta de sua presença vivificadora que é a Graça.  Poderíamos sintetizá-lo em uma frase: O apostolado é superabundância de AmorNão de nosso amor humano, forçosamente imperfeito, mas sim do amor de Jesus em nós.

Chegando a este ponto é oportuno perguntar-me que grau de persuasão pessoal tem para mim esta doutrina e suas necessárias concreções[7] para minha vida cotidiana? Como respondo efetivamente a minha vocação ao apostolado?

Santificando-me no apostolado

Que um apóstolo tem que ser cada vez mais santo, é mais que óbvio.  Ninguém dúvida que o melhor apóstolo seja o santo.  Do mesmo modo, fica claro que a finalidade do apostolado, seja como anúncio explícito do Evangelho em suas múltiplas expressões, seja como testemunho de vida cristã audaz e coerente, é a santificação das pessoas.  Nem sempre, porém, me é fácil descobrir de que forma concreta fazer apostolado me ajuda a ser mais santo.  Por isso, queremos propor algumas breves considerações pontuais a respeito:

O apostolado me configura com o Senhor Jesus.  Dizíamo-lo acima.  Ser santo é configurar-me com Cristo, ter seus “mesmos sentimentos”, concretamente seu amor universal aos homens por quem «passou fazendo o bem»[8] e «humilhou-se e foi obediente até a morte, e morte de Cruz »[9].  Jesus Cristo é o primeiro e maior Evangelizador.  Fazendo apostolado conformo-me[10] a Ele, revisto-me de Cristo.

O apostolado me reveste do Amor de Cristo.  Outra conseqüência direta do que foi anteriormente dito.  A caridade de Cristo nos compele[11].  Fazendo apostolado meu coração se dilata, aumenta minha capacidade de amar, de me entregar, rompo as barreiras de meu egoísmo, de minhas mesquinharias.

O apostolado me compromete mais com minha própria vida cristã.  Com efeito, quem não experimentou que a própria fé se fortalece ao fazer apostolado, ao expor-se diante dos outros, ao ter que dar testemunho público das próprias convicções? Ao ver minha vida cristã como apostolado evito cair na contradição do cristão “de meio expediente”.  Na família, no trabalho, na universidade ou o colégio, a toda hora estou chamado a ser apóstolo, com meu testemunho de vida, com o anúncio explícito, com a palavra oportuna, com gestos concretos de amor e solidariedade.

O apostolado me ajuda a reconhecer concretamente em minha vida que a santidade é obra de Deus com minha cooperação.  Quando faço apostolado descubro-me sempre limitado frente à grandeza da mensagem da qual sou apenas embaixador, dou-me conta de que minhas forças e esforços sempre são insuficientes, mas ao mesmo tempo comprovo que Deus abençoa e frutifica o que faço e que Ele conta comigo para chegar a muitos.  Percebo que a Graça me precede, me acompanha e fecunda minha ação.

O apostolado me alenta a coerência de vida.  A conhecida frase “ninguém dá o que não tem” possivelmente é experimentada por nós mais que nunca quando temos que dar uma palestra, participar de um retiro, dirigir um grupo, liderar uma obra solidária…  O apostolado, por seu próprio dinamismo, impulsiona a uma coerência cada vez maior entre o que sou e o que prego pois é mais crível a testemunha que o professor.  Ao mesmo tempo, o apóstolo prega em primeiro a sua vida.

O apostolado me motiva a me formar mais e melhor.  Não poucas vezes somos preguiçosos e pouco solícitos com nossa própria formação.  Descuidamos este importante aspecto da vida cristã porque o julgamos “teórico”, “pouco prático”.  Entretanto, quando fazemos apostolado experimentamos a necessidade de dar respostas convincentes, de dar “razão de nossa esperança” o que nos motiva a aprofundar mais nas verdades de nossa fé, a conhecer melhor e mais profundamente o que cremos.

O apostolado é um antídoto ao cristianismo teórico.  Uma das dificuldades que muitos cristãos descobrem é como viver sua fé no dia a dia.  O apostolado é uma maneira concreta de viver e plasmar[12] na ação minha fé.  Existem muitas maneiras e âmbitos de apostolado.  Cada um tem que encontrar o seu, onde possa dar glória a Deus desdobrando-se na ação.

O apostolado me educa no sentido épico da vida cristã.  Não poucas vezes fazer apostolado é difícil, expõe-me, dá-me insegurança.  Pode às vezes implicar em oposição e rechaço[13].  Estas dificuldades podem converter-se para mim em ocasião para me aderir mais à Cruz de Jesus, a renovar minha confiança em Deus, que pode mais que o egoísmo e a teimosia humana, e a forjar minha vontade em uma aproximação combativa e lutadora à vida cristã, que não se deixa vencer facilmente diante das dificuldades.

O apostolado me ensina a viver o desapego aos frutos.  O verdadeiro apóstolo se sabe cooperador de Deus e não procura ocupar o posto de seu Senhor, não procura apoderar-se da glória que só a Ele corresponde[14], não prega a si mesmo, mas reconhece que toda obra boa vem de Deus.

O apostolado me dá serena alegria.  Um dos frutos mais evidentes do apóstolo é a alegria de anunciar a Jesus e a serenidade que este gozo traz para a vida interior e que me permite enfrentar melhor as contradições da vida cotidiana com verdadeiro espírito cristão.

PERGUNTAS PARA O DIÁLOGO

  1. Por que o apostolado não é parte acidental da vida cristã, mas pertence a sua própria natureza? Que implicâncias concretas isto tem para sua vida?
  2. Você se descobre chamado por Deus para fazer apostolado? Como você está respondendo ao Senhor?
  3. Que relação existe entre a santidade e o apostolado? E como isso se relaciona com sua própria vida?
  4. O que significa dizer que o apostolado é superabundância de amor?
  5. Como o apostolado que você realiza pode ajudá-lo a ser mais santo? O que você pode fazer para melhorar seu apostolado?

CITAÇÕES PARA ORAÇÃO

  • Ser cristão: ser santo e apóstolo: 1Cor 9,16 ; Ef 3,8-13.
  • Sou apóstolo por vocação: Is 6,6-8 ; Jr 1,4-8 ; Jo 14,6 ; Fl 2,5.
  • Santifico-me no apostolado: Mt 28,19-20 ; Mc 16,15-16 ; 2Cor 5,14 ; Gl 2,20.

[1] Ver Apostolicam actuositatem, 2.

[2] 1Cor 9,16.

[3] Apostolicam actuositatem, 6.

[4] Ver Jo 14,6.

[5] Fl 2,5.

[6] Paulo VI, Catequese durante a audiência geral de 31 de janeiro de 1968.

[7] ato de se condensar, de se solidificar, de se tornar concreto

[8] At 10,38.

[9] Fl 2,8.

[10]  amoldar-se; identificar-se;

[11] 2Cor 5,14.

[12] dar forma, modelar

[13] fazer retroceder, opondo força contrária

[14] Ver Sl 113,1.

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